
taí um mega spoiler, forma de contemplar meus primeiros leitores, obrigada *O*
ah é, não era sobre isso que eu estava falando no final dos dois últimos posts

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Cento e trinta e seis mil palavras (ou mais) se você leu até aqui, parabéns. Fato é que a correção do Word não funciona mais com esta quantidade enorme de caracteres, então, os erros de digitação fatalmente passarão despercebidos por mim. Paciência por favor, um dia irei revisar todas estas mais de 130 mil palavras, até lá caso os erros sejam muito grotescos, me avisem nos comentários ou nas asks, ou no meu twitter. Obrigada e boa leitura!
Capítulo II - Helios
4º episódio – O Abismo parte II
Arco Deserto do Sol
Se você começou a ler agora, os links para os trechos anteriores estão no fim do post. São estritamente necessários para a compreensão da história. E muito obrigada ♥.
XI
Constance atrapalhava-se com os botões do vestido e suas muitas saias e anáguas.
- O mestre veio até aqui para ajudar-me e agora foi-se com o livreto! Oh! As anotações de sir Ivan!
Desconfiavam os dois que o inglês de propósito se tivesse esquecido do livreto no quarto de Constance, contudo, poderia ser que não, e que retornasse para reavê-lo. Desistindo de abotoar o vestido e de ajeitar as saias, abriu a porta e atravessou o corredor apenas de espartilho e ciroulas. Ia já abrindo a porta quando ouviu sons que, agora, eram-lhe conhecidos.
- Como pode ser se o mestre está sozinho?
Percebeu então: poderia sim tratar-se de uma criatura. Uma criatua cuja presença não se podia notar. Girou a maçaneta, investindo furiosa contra a porta.
- Mestre, como ousa manter o… hããã?!
Não apenas estava o incompositus sentado junto ao duque sobre o caixão, como tinha nada menos que sua aparência. Rosnando enraivecida, retrocedou alguns passos no corredor e tomando a espada de uma armadura que ornava o lugar, retornou ao quarto, atacando o espírito traiçoeiro.
Amadeus deteve-a agarrando-a pelas costas.
- Mestre, que está fazendo?! Deixe-me matá-lo!
- Não posso permitir que firas minha CanCan!
- Sua CanCan é um demônio! Matará todos nós alimentando-se de nossas almas!
- Não tenho alma, chérrie, estou morto.
- Solte-me mestre, o incompositus se foi! Devo encontrá-lo! Solte-me!
- CanCan é inofensiva! Quer apenas companhia e atenção!
- E para isto é preciso que tenha a minha aparência?!!! – Constance desvencilhou-se, enfurecida – Explique-se!!!
- CanCan quis agradar-me, ora.
- Agradar-te!!! Com minha aparência?!!
Amadeus suspirou…
- Chérie… ver o lindo rosto de minha amada Chantall mais iria ferir-me que alegrar-me. Quanto à princess Adelle, bem… – Amadeus disfarçou o riso.
- E por conta disto pedes ao demônio que se pareça comigo? – Constance esbravejava, gesticulando com os punhos cerrados.
- Não se refira à má CanCan deste modo!
- GRGRGRGR!!!
Disposta a não permitir que o incompositus se safasse uma vez mais e incrédula diante da atitude de seu senhor perante o perigo a que expunha os demais, mantendo a criatura no castelo, Constance avançou para fora, pondo-se a descer as escadas. Amadeus seguiu-a, apressado.
- Constance, estás louca? Não pode caminhar pelo castelo em trajes menores!
- Oh! Tão estupefata fiquei com tamanha atitude disparatada do senhor que sequer lembrei-me que estou usando apenas minhas roupas de baixo.
- Atitude disparatada?
- Manter o incompositus no castelo!
- Chérrie, CanCan não pode matar-me.
- Contudo, poderia matar a mim.
- De fato.
Constance encarou a despreocupada e impassível face do duque por instantes.
- Ora! Vou vestir-me para procurar o incompositus!
- De modo algum! – tirou-lhe a espada – Certamente estragará teu tão caro vestido e igualmente também os sapatos. Além de que, irá descabelar-se! Deves tomar o máximo de cuidado com teu penteado.
- Não tenho penteado algum em meus cabelos…
- Terás tão logo Adelle o faça.
- Mademoiselle Adel…
- Oui, Constance, não é maravilhoso?
- Não.
Amadeus puxou a criada pelo braço, empurrando-a para dentro de seu quarto.
- Agora vista-se e ponha teus sapatos. Pedirei a uma criada que traga Adelle.
O duque fechou a porta atrás de si, contudo, não antes de ouvir Constance vociferar para que não fosse ter com o incompositus novamente.
Outras tantas vezes esteve Alistair diante do grande espelho que decorava a entrada do castelo. Contudo, era impossível permanecer assentado e quieto. Veria o rei, deveria estar impecável. Mais relevante que isto, era a ocasião pela qual viria o rei ao castelo: a grande noite de sua prima Adelle, que jamais o perdoaria caso lhe estragasse o momento. O próprio Alistair seria pois, incapaz de olhar-se novamente no espelho, como então. Achou-se bonito ao ver o próprio reflexo. Tentou assumir postura e expressão tais que lhe fizessem passar por um rapaz pouco mais velho. Vinte e cinco anos, talvez? Vira Constance fazê-lo algumas vezes. Eriçando o corpo, a boca séria e o olhar que parecia fitar algo para além das pessoas com quem falava faziam-na quase incontestavelntemente uma mulher bem mais velha. Imaginou que lhe ajudariam os trajes que vergava. Sobre os cabelos muito claros, em lugar de seus diferentes e joviais chapéus, um muito sóbrio. As calças, sempre descontraídas, listradas ou xadrez, eram neste entardecer, lisas. Tanto quanto o eram o colete e o casaco que portava por cima de uma muito branca camisa. Eram estas três peças, cinzas, cor que não lhe agradava em absoluto. Gostava de azul, e quando podi usar listras ou xadrez, preto. Contudo agora, pretendia parecer o mais adulto que lhe fosse possível. Um homem nobre e não simples rapazote fidalgo. Era importante e disso sabia. Protegia o mundo das hostes das trevas. Era porém, mister, dar ao rei e aos que porventura lhe acompanhassem, ciência deste fato. Não tinha certeza que lhe permitiriam dirigirir-lhe a palavra. Providenciaria, então, ao menos em aparência e gestos, ser irretocável homem de respeito. Encarou o espelho uma vez mais. Quem sabe quantas belas damas viriam ao jantar? Ensaiou o olhar que tantas vezes vira monsieur le duque dirigir às jovens.
- Pretendes fazer o rei rir-se até a morte?
Assaltado pela voz feminina, Alistair deu um salto, virando-se imediatamente em seguida para deparar-se com Constance. Usava, os agora para ele conhecidos, cabelos compridos totalmente presos para trás, em um grande e mui cacheado rabo-de-cavalo e vergava um elegante traje masculino em tom de terra, que lhe deixava os olhos ainda mais castanhos. Encolheu-se. A criada lhe parecia mais adequada às roupas de um homem adulto que ele próprio.
- Ora, monsieur Alistair, porque o desânimo? Estás tão belo esta noite!
O jovem baixou os olhos por instantes. Poucos segundos ao lado da amiga foram suficientes para trazer à tona toda a angústia dos tempos passados no abismo. Que diria ela sobre Jules?
- Constance, eu… eu quero… em verdade, eu preciso… eu… Constance…
- Monsieur Alistair, deixe de estar envergonhado! Vamos, dê-me o braço – estendeu-lhe o braço esquerdo, aguardando que lho tomasse – já escureceu, de modo que podemos esperar pela festividade apreciando o jardim.
- Oh! – estendeu-lhe o braço esquerdo, que segundo a sua experiência, seria encaixado por baixo do braço da criada.
Constance contudo, não o fez, deixando que o jovem a segurasse e conduzisse em direção ao jardim. Alistair, posto sentisse certa estranhaza e desconforto frente à nova situação, logo julgou ser aquela, demonstração de que a criada não lhe guardava ressentimentos, e atribuiu também à boa disposição da moça ao seu traje garboso e à elegância com que certamente lhe caía este. No meio do animado passeio, no entanto, sentiu embaçar-se-lhe a visão. Era difícil respirar, como se a garganta lhe estivesse tapada. Tentou alcançar o banco mais próximo, e sobre ele recobrar as forças, contudo, os pés vacilaram e caiu desfalecido. Constance inclinou-se sobre ele, e o jovem notou que parecia sugar algo do ar, com os lábios entreabertos. Parecia feliz e satisfeita. Alistair, porém, perdia cada vez mais a capacidade de ver e agora não podia mover-ser. Nem mesmo um único músculo. Sentiu que morreria. Pediu socorro, contudo, não podia mover os lábios ou emitir ruído algum. Pensou ter clamado por ajuda, contudo, permanecia imóvel. Morreria ali no meio do jardim. Por que Constance estava-lhe fazendo isto? Então como última visão antes de perder completamente a consciência de mundo e morrer, viu-lhe o sangue jorrar abundante, cobrindo-o e o corpo da criada dividir-se em muitos pedaços, chamejando, vermelhos.
- Alistair, resista!
Era a voz de sua prima Adelle. Porém, as pálpebras pesavam-lhe como pedras e sentia tanto frio! Fechou os olhos e encolheu-se.
- Alistair ficará bem, senhorita, devemos certificarnos de destruir a incompositus!
- Oui!
Adelle intensificou o poder de suas chamas de sua espada tocando os restos mortais do demônio com elas.
- Que está fazendo com minha CanCan?! – Amadeus aproximou-se desesperado e correndo. Ajoelhou-se próximo aos restos, de forma dramática.
- Que está havendo? Notei que o mestre correu de seu quarto e… Oh! – Constance estacou, olhos arregalados. Era estranho ver-se esquartejada e em chamas. – Então… o incompositus se foi?
O duque e sir Ivan respoderam ao mesmo tempo.
- A…
- CanCan.
Foi o nobre francês quem continuou, lamurioso.
- Mà chérrie CanCan! Pobre CanCan!
- Monsieur le duque, não se aproxime, as chamas sagradas de minha espada certamente destruirão teu corpo de vampiro!
- Oui, tens razão, mà princess, porém… CanCan, pobre e delicada CanCan!
- Mestre, deixe de se lamentar pelo demôn… Aaaaaah! Sir Ivan, que é isto?
Um estranho e muito forte vento passou entre todos, que caíram ao chão imediatamente. Virando os rostos de sobre o chão, puderam observar enquanto o corpo do incompositus refazia-se miraculosamente intacto, assumindo, não a forma de Constace, mas sim a de uma também mulher, também de pele escura. Sendo que estava sob o ar, flutuando entre eles, apenas observavam, aguardando que lhe pudessem ver o rosto. Em lugar disto, uma monstruosa cabeça de gato, com bizarra feição feminina surgiu sobre o pescoço.
- Ba-en-Aset! Constance!
Antes que a criada pudesse aperceber-se, jogou-se o inglês sobre ela, recebendo sobre si enorme quantidade de disforme e assustador feixe de luz branca, semelhante à luz de Cardinale.
- Sir Ivan!
Por instantes, teve Constance a nítida impressão de que o corpo sobre si estava morto. O cavaleiro das trevas, contudo, abriu os olhos, sorrindo-lhe.
- Esta luz não pode ferir-me, Constance. – erguendo-se, sumonou sua espada de escuridão – Fuja. O duque também. Saiam, depressa!
- Fugir?! Jamais!
- Tivéssemos fugido e Jules estaria ainda vivo!
- Oh!
- Chérrie, – Amadeus tomou a criada pela mão –venha!
- Mestre, quando começamos a acovardar-nos frente aos inimigos?
- Quando estes inimigos passaram a representar evidente perigo de morte aos que nos são caros! – apontou gravemente para Alistair, caído inconsciente logo abaixo de onde flutuava a estranha criatura de cabeça felina. – Traga-o!
Veloz como um raio, Constance tomou Alistair nos braços, correndo em seguida para o meio do jardim. Outrora, em suas lições, treinamentos e conversas a respeito do legado, tinha-lhe Amadeus instruído a não abrigar-se em cômodo algum do castelo caso estivesse em perigo e fosse noite. O jardim, ou então fugir para fora dos muros, era o mais seguro para evitar serem encurralados. Além disto, com sua força bruta e descomunal, poderia mais facilmente enfrentar qualquer oponente em campo aberto. Sentou-se sobre o chão, apoiando a cabeça de Alistair em seu colo.
- Monsieur Alistair, acorde, por favor! Onde está o mestre?
Concentrando-se, Constance pôde ouvir enquanto Amadeus corria até a ala da criadagem, levando consigo Adelle. Muitos desconhecidos estavam no castelo aquele dia, ajudando nos afazeres para receber o rei. Iriam hipnotizá-los, certamente. Tendo Alistair uma vez mais em seus braços, apavorou-se. Outra vez estava Alistair consigo, à beira da morte. Ao longe, podia observar o confronto entre a espada negra de sir Ivan e os brilhantes feixes de luz da monstruosa mulher com cabeça de gato, que iluminavam a recém-chegada noite.
- Não chore, diabinha!
- O senhor está aí, certamente a criatura que nos ataca tem parte contigo!
- Caso tivesse eu alguma relação com… aquilo, faria por acaso isto?
Constance encolheu-se, tentando proteger o corpo de Alistair, pois que Cardinale inclinava-se sobre ele. O ser de luz riu-se.
- Não é necessário que o toque.
Constance contemplou, estupefata, enquanto a luz de Cardinale conferia ao jovem fidalgo efeito semelhante à restauração proporcionada pela ingestão de seu sangue. A respiração, então fraca, acentou-se mais e mais até voltar ao normal e a cor voltou-lhe. Em seguida, abriu os olhos muito azuis, fitando-a por alguns segundos.
- Constance… desculpe… creio ter dormido durante nosso passeio. – sentou-se – Estás de vestido?
A espada negra de sir Ivan e os ataques de luz da mulher de feições felinas chocaram-se violentamente desta vez, gerando um forte estrondo, que não apenas ressoou, como fez com que o chão tremesse, enquanto lançava os dois confrontantes em direções opostas. A criatura feminina caiu muito próxima, quase aos pés de Cardinale. Sir Ivan, por sua vez, fora lançado contra o muro, no corredor. Constance agitou-se, saltando sobre Alistair e correndo na direção em que o inglês caíra.
Há de serHá
Capítulo I
1° episódio - 4ª, 5ª e 6ª parte
3ª Episódio - 1ª, 2ª, 3ª e 4ª parte
Capítulo II
1º episódio - 5ª. 6ª , 7ª e 8ª parte
1º Episódio - 9ª, 10ª, 11ª, 12ª e 13ª parte
2º episódio - 8ª, 9ª e 10ª parte
2º Episódio - 11ª, 12ª e 13ª parte
2º Episódio - 16ª, 17ª e 18ª parte
3º Episódio - 17ª, 18ª e 19ª parte
Próximo post, ou no próximo, ou no próximo Q estou planejando uma pequena surpresa ><.
Cento e trinta e seis mil palavras (ou mais) se você leu até aqui, parabéns. Fato é que a correção do Word não funciona mais com esta quantidade enorme de caracteres, então, os erros de digitação fatalmente passarão despercebidos por mim. Paciência por favor, um dia irei revisar todas estas mais de 130 mil palavras, até lá caso os erros sejam muito grotescos, me avisem nos comentários ou nas asks, ou no meu twitter. Obrigada e boa leitura!
Capítulo II - Helios
4º episódio – O Abismo parte II
Arco Deserto do Sol
Se você começou a ler agora, os links para os trechos anteriores estão no fim do post. São estritamente necessários para a compreensão da história. E muito obrigada ♥.
X
Com o braço esquerdo abraçando a cintura de Constance, Amadeus e a criada folheavam as anotações de sir Ivan. De tempos em tempos, o vampiro detinha-se em alguma página, contudo, tão longo Constance iniciava a leitura, o duque tornava a folhear.
- Mestre…!
- Era sobre o incompositus, chérrie, sir Ivan já explicou-nos a respeito.
- Ora… mas eu gostaria…
- Gostaria de atender-me.
- Hunf!
- Pare de resmungar… – beijou a criada nos cabelos, empurrando-a em seguida e tomando o livreto com as duas mãos.
Constance tornou a aproximar-se, olhando o livro por cima do ombro de seu senhor.
- Quero algo que me desperte o interesse, chérrie, não necessito ler sobre vampiros, ou gárgulas, abominações, ou… bem, nada do que já conheçamos ou tenhamos visto.
- Eu porém considero que ainda que já tenhamos encontrado ou mesmo sejamos da espécie de criatura em questão, seria-nos de grande valia saber que diz o livro a respeito.
- Contudo, nem todas as anotações são referentes a trechos do livro, chérrie.
- Pensei ter dito que fosse lento para ler em inglês…
Amadeus lançou um rápido olhar faceiro para a criada, desviando-o logo em seguida e tornando ao livreto.
- Aqui, Constance, leia isto, s’il te plaît.
- … Ugus Kaajaan…
- Isto eu mesmo posso ler, Constance! Traduza o nome em inglês! Veja, esta página de trás… – tomou novamente o livreto para si, virando a página – Um pequeno esboço do animal que lhe atacou semanas atrás.
- Oh! – a criada pegou o livro novamente – Porém, a página que o descreve seria esta que me mostrou ou a posterior?
- Leia sobre o Ugus Kaajaan. Fire… é a palavra dos ingleses para fogo, não?
- Bem… sim… Isto… Fire Walking… huuum… O Fogo que Anda? Fogo Andante?
- Não importa a tradução correta do nome, Constance, leia as anotações sobre.
- Bem, aqui diz… “o nome dado a criatura está no idioma letão… pois era esta a língua falada pelos primeiros mortais a encontrá-la. Huuum… a criatura de pequeno porte aparenta inocente fragilidade apesar de apresentar estranhas e brilhantes cores, algo como um tom chamejante no que trataríamos comumente por pelos.”
- Prossiga, chérrie.
- Ora, não é tão simples!
- Pare de reclamar e leia.
- Ora!
A criada tomou fôlego, enquanto tentava traduzir de forma adiantada algumas palavras.
- O texto segue: “A semelhança com um pequeno animal canino ou felino confere-lhe extrema facilidade para atrair caçadores, cientistas, estudiosos, crianças e toda sorte de curiosos, dos quais, matando-os, alimenta-se de suas carnes, ossos, vísceras, pele, carcaça e mesmo olhos e cabelos.” Oh! Que asco!
- Lendo, chérrie, lendo…
- “Do que foi possível aos poucos mortais com conhecimentos e habilidades próprios ao estudo do sobrenatural apurar, é-nos estranho concluir que a criatura, inexplicavelmente, possui o corpo, diretamente sobre a carne, revestido de uma espécie medonha de fogo mágico, para a qual se faz necessária uma quantidade enorme de água, a fim de cessar. As tais chamas sobrenaturais queimam todo e qualquer tipo de superfície ou material conhecido, não poupando mesmo o solo. Quanto à criatura, tem esta real e preponderante instinto asssassino e sanguinário, além de apetite insaciável, com que não hesita, ao contrário busca constantemente, atacar a toda criatura viva da qual possa alimentar-se de sua carne e sangue. Além de que, seu comportamento denota indícios de que lhe compraz causar sofrimento e horror a suas vítimas, visto matar de forma lenta e torturante.”
- Corresponde quase que totalmente com tudo o que observamos na criatura, porém, se de fato é como está descrita nas anotações, porque atacou apenas a ti, tendo passado tanto tempo sendo perseguida por Jules? Veja o que dizem as anotações quanto a possibilidade de controlar ou dar ordens à criatura.
- Huu… - Constance folheou as anotações – Não há mais nada a respeito.
- Então… foi uma leitura inútil?! Que agradável! Dê-me aqui novamente!
Constance permaneceu em silêncio, observando enquanto Amadeus virava as páginas com acentuada impaciência. Deteve-o de repente.
- Mestre, que é aquilo?!
O vampiro voltou quatro páginas, lentamente.
- Oh! Esta é sem dúvida um gravura muito melhor cuidada que as demais.
- Parece ter sido costurada por cima da costura original do livro, veja!
- De fato. Veja, é como as ilustrações dos livros dos grandes autores, ou mesmo mapas cartografados. É de qualidade ímpar. Sir Ivan o transferiu de algum lugar.
Constance examinava minuciosamente o livreto, esfregando seu rosto nas páginas.
- A costura sobre a original é também muito bem feita. – afastou o livro – E esta imagem horrenda, que será? Por que terá sir Ivan empenhado tanto trabalho em juntar algo assim às suas anotações?
- Leia a descrição e saberemos.
- Hu…u…um. – Constance olhava confusa para a página aberta diante de si. – Huuum… eeer…
- Que tem, chérrie? É por acaso algum feitiço de mudez?
Constance franziu o cenho, irritada.
- Não consigo ler esta palavra. Igualmente, duvido que seja capaz. – estendeu-lhe o livreto.
O duque examinou a página que a criada lhe mostrava por alguns segundos.
- Que língua é esta? Que tipo de palavra tem tantas consoantes seguidas?
- … tem apenas duas vogais… – Constance articulou um u com os lábios, enquanto tentava imaginar como pronunciar a seqüência de consoantes, proferindo som nenhum – Há de ser alguma língua de demônios, mestre!
- É provável… Leia o restante, que está em inglês.
- Huum… o… Ku… Uuu…
- Não preciso que leia o nome da criatura… leia a descrição!
- “O poderoso, e sobretudo mais temido dos seres sobrenaturais, o…” – pigarreou – bem, o senhor sabe que se trata da criatura da gravura, não? Enfim, o ser “nunca foi avistado realmente, a descrição que se segue, é baseada em estudos do sobrenatural e relatos encontrados em pirâmides, templos, esculturas, louças sagradas, quadros e outras tantas obras produzidas e registradas pelos homens ao longo dos milênios. Apesar de ignorarmos por completo quais sejam suas habilidades destrutivas, é sabido e certo serem as maiores e mais destrutivas em todos os mundos conhecidos até então. Acredita-se, dada a natureza das informações, sobretudo de templos e utensílios sagrados de diversos cultos distintos, que mesmo a visão do… oh… da criatura matará imediatamente todo mortal e grande parte dos seres sobrenaturais de diversas espécies de raças mais frágeis e aproximadas ao ser humano…”
- Raças mais aproximadas ao ser humano? Isto quer dizer…? – Amadeus interrompeu.
Embora portasse aparente calma, a voz denotava evidente ansiedade. Fitou a criada com um pouco mais de atenção. Sentiu-a aflita.
- Que tem, chérrie?
- Mestre, como é possível que exista tal monstro? Digo… como alguma criatura, postedade ou ser poderia extinguir a vida dos demais apenas exibindo sua aparência a estes?
Amadeus, geralmente dotado de extrema astúcia, sagacidade e tendo vivido anos suficientes para portar um invejável conhecimento de muitas coisas, surpreendeu-se ao notar-se sem resposta pronta à Constance. Respondeu-lhe, poucos segundos depois, com o único questionamento lógico que lhe ocorreu:
- Imaginou, chérrie, alguma vez antes de quase ser morta por Cardinalle, que mesmo sem converter-lhe o corpo em cinzas ou semelhante, a luz poderia subtrair-lhe a existência? E que existisse ser tal capaz de matá-la sem contudo ferir-lhe o corpo ou mesmo tocar-lhe?
- Oh…! – fitou as páginas que lia, surpresa – Alguém deve deter tal nefasta criatura!
- Não seremos nós, Constance. Mesmo porquê, até que tenhas lido por completo as informações anotadas por sir Ivan, ignoramos por completo onde vive, se é que ainda vive, e como matá-la.
- Por que as anotações conteriam instruções sobre como matá-la? Nada parecido reparei nas anotações sobre o Ugus Kaajaan.
- Apenas prossiga e saberemos. Mesmo porque, as anotações dizem que nunca foi avistado realmente. Tenho para mim, que sequer deva existir. É provavelmente, apenas boato, ou história fantástica de feiticeiros, alquimista e toda a gama de seres mortais que insistem em envolver-se com o que não compreendem e da mesma forma, e por isto mesmo, não podem lidar.
- Mestre, o senhor era um mortal!
- Disse bem, chérrie. Providenciei para que esta situação chegasse ao fim. – encarou a criada com um enigmático olhar – Sinto muito que jamais poderá sentir o que sinto. Tendo nítida consciência das diferenças entre viver como mortal e existir como ser sobrenatural, não efêmero. Nunca poderá senti-lo, Constance.
A criada permaneceu em silêncio, encarando seu senhor, incapaz de proferir palavra a respeito, confusa que estava com o que acabara de dizer-lhe o vampiro.
- Vamos chérrie, não se entristeça com o que acabo de dizer-lhe! Tens a vantagem de ser destemida, pois que os males que afetam e tiram a vida dos mortais não lhe representam perigo.
A criada porém, não alterou as feições, o que fez com que o duque buscasse alternativa à situação desajustada.
- É melhor que prossiga com a leitura.
Constance correu os olhos pelas páginas, procurando o parágrafo a prosseguir.
- O texto segue: “Nenhuma representação visual, gravura, pintura ou escultura, da criatura foi encontrada até então, porém, das muitas descrições por escrito podemos chegar à seguinte aparência que, acreditamos, mais se aproxime da realidade, sendo que a criatura muito provavelmente possua traços vagamente antropodes, contudo, uma cabeça de polvo ocupa o lugar sobre o pescoço, nesta grotesca cabeça, um rosto como um amontoado de tentáculos. Tão repulsivo quanto a cabeça e o rosto possam ser, ainda mais lhe é o corpo escamoso, cujas patas terminam em prodigiosas garras dianteiras e traseiras. Completam a monstruosa anatomia longas asas estreitas nas costas, sendo que em todas as menções encontradas a respeito do ser, é observado que dorme profundamente nalgum lugar remoto, com seu corpo de aspecto inchado assentado sobre um bloco ou pedestal retangular, coberto por indecifráveis caracteres, cuja origem, acredita-se remonta às trevas, ou qualquer gênese não-humana. Ainda é importante ressaltar que dorme profundamente a criatura em sua desconhecida morada pois que é impossível a qualquer ser, mortal ou mesmo sobrenatural, tirar-lhe a vida ou deter-lhe, caso desperte. Crê-se que a ciência e o acesso a tais relatos seja possível graças a vil e inacreditável existência de cultos e seitas de adoradores e seguidores da criatura. Muitos motivados não por fé ou crença de que possam subsistir caso desperte, outrossim, seguem-no e prestam-lhe louvores motivados pelo medo extremo e inevitável, que alcança-os de forma incompreensível e imperceptível, assaltando-lhes a mente enquanto dormem ou permanecem sozinhos à noite, em meio à escuridão e reduzindo seus pensamentos, com terríveis e assombrosos pesadelos e visões tremendas, à devoção cega e inconsciente, encaminhando-os lentamente à posterior e inevitável loucura advinda do pavor e desespero sem controle, levando muitos a desejar e buscar a morte e outros tantos a arrancar os próprios olhos na esperança vã de que cessem as temíveis imagens aterradoras de desolação e morte.”
Constance suspirou longamente ao término da leitura, tentando aliviar a tensão do corpo sentado sobre a cama. Amadeus, posto tivesse a habitual aparência de serenidade, e certo desdém, de sempre encontrou-se sem palavras para prosseguir diálogo com sua criada. Foi esta quem quebrou o longo silêncio que se seguiu à leitura.
- Sir Ivan sempre nos repete que não há um deus ou criatura semelhante, porém, Jomale foi um dia uma mulher como as outras… Como é possível que se tenha tornado em um ser tal, capaz de com simples palavras em um livro trazer à existência criatura como esta sobre a qual acabo de ler? E caso não tenha sido Jomale, quem poderia ser? Ainda… quem poderia fazer adormecer tal monstro? Mestre… sempre me fez acreditar que seria eu um dia o mais forte ser vivente que já existiu, isto contudo não é possível, não é mesmo? Como poderei eu, sobrepor a magnitude dos seres que fizeram esta criatura e de igual modo aquele ou aqueles que lhe fizeram dormir? Ou… o senhor tampouco sabe a respeito destas coisas?
Passando o braço sobre o ombro da criada, aconchegou-a junto a si.
- Admito que muitas coisas há, das quais nada sei a respeito. Das coisas que sei contudo, pouco ou nada posso contar-lhe no momento. Posso, todavia, assegurar-lhe a respeito disto – tomando o livreto, apontou para a gravura da grotesca criatura – nem mesmo tal ser irá estouvar-nos em nossos intentos. Tudo de que necessito é que permaneças comigo.
Constance abraçou-se à cintura de Amadeus, apertando o rosto contra seu peito.
- Isto é uma espécie de promessa de que nunca mais irá desobedecer-me?
Amadeus sentiu que o corpo da criada tremia. O que teve início como receosa preocupação tornou-se rapidamente em contrariado ressentimento. O tremor, que de início fora interpretado por Amadeus como medo ou talvez choro, era na verdade riso, que Constance lutava para conter.
- Ora! De fato, por mais que tente moldá-la aos meus refinados modos, hás de sempre ser um pequeno demônio. Pensei que trazia comigo para casa uma criança e na verdade carregava junto ao peito um diabinho possuído por lucíferes!
A repreensão do duque resultou apenas em riso mais exagerado e aberto da criada.
Capítulo I
1° episódio - 4ª, 5ª e 6ª parte
3ª Episódio - 1ª, 2ª, 3ª e 4ª parte
Capítulo II
1º episódio - 5ª. 6ª , 7ª e 8ª parte
1º Episódio - 9ª, 10ª, 11ª, 12ª e 13ª parte
2º episódio - 8ª, 9ª e 10ª parte
2º Episódio - 11ª, 12ª e 13ª parte
2º Episódio - 16ª, 17ª e 18ª parte
3º Episódio - 17ª, 18ª e 19ª parte
Próximo post, ou no próximo, ou no próximo Q estou planejando uma pequena surpresa ><.
Há de serHá
Sei que vai parecer que sou uma analfabeta preguiçosa, mas o aviso que vou dar agora é sério e real. Necronomicon ultrapassou a quantidade de palavras que o corretor ortográfico do word escaneia (130 mil e subindo /o/) sendo assim, este não funciona mais. Portanto, a possibilidade de vocês encontrarem um número absurdo de erros de digitação é bem grande. Caso os erros sejam muito grotescos, me avisem nos comentários ou nas asks, ou no meu twitter. Obrigada e boa leitura!
Capítulo II - Helios
4º episódio – O Abismo parte II
Arco Deserto do Sol
Se você começou a ler agora, os links para os trechos anteriores estão no fim do post. São estritamente necessários para a compreensão da história. E muito obrigada ♥.
IX
- Creio que Jules estava certo…
- A respeito de quê?
- Não posso imaginar madamme la barone caminhando por este deserto infinito de areia em um de seus vestidos… e com aqueles sapatos!
Alistair olhava para o chão, pensativo. Constance falou novamente, após alguns instantes.
- Monsieur Alistair, está me ouvindo?
- Oh! Sim. Concordo sim com o que disse… Isto me faz pensar. – soltou um longo suspiro. A expressão, sempre jovial, denotava preocupação – Teríamos vindo até aqui em vão? Digo… não há nada aqui… Caso algum perigo houvesse, teríamos já sido atacados. Tudo o que sucedeu até o momento foi teu medo inexplicável de coisa alguma.
Constance desviou o olhar, envergonhada.
- Parece-me impossível fazê-los crer que de fato algo exista para que eu tema. No entanto, os sons eram muito reais. Deixemos isto de lado. – apressou os passos – Devemos ir ter com sir Ivan. Pediremos para regressar ao nosso mundo. Se de fato, alguma vez o deixamos.
- Não pensa que o sol já teria se posto caso estivéssemos em nosso mundo? Digo… Não se moveu nada desde que aqui chegamos. – cobriu os olhos com a mão direita, olhando para cima.
Constance porém não o ouviu. Caminhava, já, próxima à sir Ivan e Jules, preparando-se para chamá-los, quando ouviu nitidamente o som de outrora. Se dúvidas anteriores houvessem, sumiram todas. De fato havia algo construído em madeira não muito longe dali, contra o que investia o vento. Em lugar de chamar os dois cavaleiros e com eles argumentar para que retornassem, correu adiante deles, na direção do som. Ao longe, avistou uma enorme quantidade de águas roxas. Parou estupefata, retrocedendo alguns passos.
- … sir Ivan…?
O inglês, que correra junto com os outros dois homens para alcançá-la, tentava manter-se sereno e atento. Puxou suas anotações.
- Estou quase totalmente certo de que minhas anotações , bem como as lições que recebi ao longo da vida, nunca trataram de um mar de águas roxas.
- Mar…? O mestre nunca me levou para ver o mar… Isto… é mesmo água?
- Nem eu tampouco deixei as imediações de Estrasburgo. – parado ao lado de Constance, inconscientemente, Jules tomou-lhe uma das mãos.
- Eu, uma vez, estive no mar com minha irmã e meu cunhado! As águas contudo, eram azuis. Porém, só ao longe. Próximas, tinham tonalidade de areia.
- Sir Ivan, isto… é água?
- Só há um modo de confirmar, pequena.
Os três franceses observaram enquanto o nobre caminhava em direção ao que julgavam ser uma praia. Decidiram acompanhá-lo, longe. O inglês caminhava lentamente. Pelo que, os três amigos contavam os passos, vagarosamente. O estrangeiro chegou finalmente ao local em que a areia alcançava o que julgavam ser água. Sir Ivan abaixou-se, estendendo à mão para baixo.
- Oh, sir Ivan, não toque nisto, pode ser perigoso!
- Caso seja perigoso, os três devem fugir. Repita as palavras de antes e leve Alistair e Jules para fora daqui em segurança.
- Mas, sir Ivan, o senhor…
- Cale-se. Não pode dizer-me o que fazer.
- Ora, sir Ivan, estou preocupada. Caso algum mal lhe suceda, não fugirei, irei ampará-lo!
Sir Ivan, ergueu-se, virando-se para Constance.
- Eu sim posso dizer-lhe o que fazer.
Aproximando-se, puxou-a para junto de si, revirando-lhe os bolsos e enfiando a mão por dentro de sua camisa abotoada.
- Sir Ivan, que está fazendo, solte Constance!
O inglês, ignorando os protestos de Jules e da criada, puxou a relíquia de Amadeus, colocando-a nas mãos de Constance.
- Caso seja eu atacado, ou qualquer sorte de mal me sobrevenha, use a relíquia e volte com Jules e Alistair, é uma ordem.
Os três calaram-se, enquanto sir Ivan retornava para a margem. Outra vez abaixou-se, tomando um pouco da água de cor estranha com a mão direita. Os jovens franceses suspenderam a respiração. Constance agarrou o braço de Jules, sussurrando, desesperada:
- Jules, detenha-no!
- Como faria isso, Constance?!
- Está bebendo! – tomado de pavor, Alistair correu em direção ao amigo inglês – Sir Ivan, não!!!
Tarde demais. Calmamente, o nobre secou o rosto e as mãos com a capa, erguendo-se para encarar Alistair, que correra em sua direção.
- É apenas água salgada.
- Ora… mas mas… e esta cor?
- Estamos em um mundo diferente do nosso. É natural que a água seja estranha. Assim como… – interrompeu suas palavras, apontando para o alto.
- Oh! Entendo o que o senhor quer dizer. – baixou o rosto, apertando os olhos – Deixou-nos preocupados! Como sabia tratar-se apenas de água?
- Não sabia. Poderia mesmo ser uma forma de vida do abismo.
- Oh! – Alistair baixou os olhos, amargurado – Minha pobre irmã!
Sir Ivan apertou o ombro de Alistair com firmeza.
- Acalme-se. É melhor imaginar que esteja bem. Até mesmo porquê, iremos salvá-la.
Foi interrompido em seu discurso por Constance.
- O som de vento contra a madeira, vem do leste. Não muito distante daqui. Sendo que isto é uma espécie de mar, é provável que seja um atracadouro, ou caso tenhamos sorte, um barco.
- De que nos serviria um barco? Para onde iríamos? Este mar parece-me infinito. Ouves algo mais?
- Bem… – Constance tentou concentrar-se – Não, não ouço nada, Jules. Porém… não foi o que fizemos até aqui? Apenas seguir? É como se este mundo estivesse guiando-nos.
- Ou talvez, mesmo a relíquia de monsieur le duque! Não acham que seria provável?
Sir Ivan puxou Alistair.
- Sigamos para o leste!
Os quatro amigos prosseguiram diligentemente seguindo a faixa de areia em direção ao leste. Novamente, como nas horas anteriores, o sol não se moveu. As horas pareciam passar de forma confusa e insana. E nada havia que não mar e areia. Pouco a pouco, o som do vento contra a madeira parecia mais e mais forte para Constance, até que cada um deles pôde avistar ao longe um atracado a um porto.
- Constance tinha razão!
Como era de se imaginar, Alistair apressou-se, correndo adiante dos demais.
- Espere por nós, Alistair, pode ser perigoso!
O jovem fidalgo, porém, sequer deu ouvidos a sir Ivan. Alcançando o navio, correu para dentro.
- Oh! Que monsieur Alistair está fazendo? É muito imprudente! Temos que alcançá-lo!
Constance correu, seguida pelos dois homens. Tão logo chegaram ao pequeno porto, Alistair correu pelo convés, ofegante.
- Está vazio! Vamos, depressa!
Chegando ao navio, uma vez mais Jules olhou para o alto, protegendo os olhos com as mãos.
- Este sol, me intriga e assusta. De fato tuas anotações nada dizem a respeito?
- Nem mesmo uma única menção. Bem, temos um navio. Tentaremos chegar a algum lugar com ele? Foi a única coisa que encontramos neste mundo…
- Como disse Constance, é possível que este mundo nos esteja guiando, o que para mim significa evidente perigo.
- Que mais poderíamos fazer além de tomar o navio e com ele transpor estas águas?
- Regressar ao nosso mundo.
- Não! E minha irmã? Devemos salvá-la! Imaginei que fossêmos amigos e que estivesse preocupado com Chantall, tanto quanto eu estou! – Alistair sufocou um soluço.
Jules estremeceu. Tomou o amigo pelos braços.
- Alistair, estou de fato mui preocupado com o que possa ter sucedido a madamme la barone e contigo. Considero-te um grande amigo e nada me importaria mais do que ajudá-lo, contudo, podes imaginar tua irmã atravessando sozinha este deserto até aqui?
- Não, mas…
- Não, mas é necessário também considerar a hipótese de que para cá tenha sido trazida contra sua vontade e assim sendo, seus algozes nos estejam conduzindo até o local de seu cativeiro. Sim, de fato isto quer significar evidente perigo para nós. Todavia não temos escolha a não ser seguir o curso que o abismo nos impõe e agarrar-nos a única alternativa que se apresentou até aqui de resgatar a senhora baronesa.
- Apressem-se os três!
Dentro do navio, Constance buscava içar as velas e entender como navegar com o navio, imaginando que o que lera em seus livros poderia lhe ser útil. De fato, ler um livro e navegar uma nau verdadeira eram situações mui distintas entre si.
- Afaste-se pequena. Meu pai ensinou-me a navegar. – tomando Constance pelos ombros, afastou-a do timão.
- Ora! – inflou as bochechas, como lhe era de praxe.
Constance cruzou os braços e sentou-se emburrada a um canto.
- Constance, que tem? Desta forma não aproveitarás a viagem. Além disto, precisamos de tua força e destreza para auxiliar sir Ivan. Um navio tem muito mais que apenas o timão.
- Sir Ivan está sempre a chamar-me de pequena e a interromper minha diversão!
Jules permaneceu em silêncio, olhando em volta.
- Pensa que não sou capaz de perceber que queres rir?
- Desculpe! É sempre cômico quando se indispõe com alguém. E também ficas tão graciosa… – tomou-lhe uma das mãos, beijando-a.
Constance puxou a mão de volta para si.
- Não temos tempo para isto.
- E de fato és pouco mais alta que uma criança… – sussurrou, rindo.
- Jules, posso ouvi-lo!
Inflando as bochechas outra vez, saiu irritada.
- Este vento não é suficiente para mover o navio.
- Estive pensando nisto.
- Não estavas. Que sabe sobre navegar? Nada.
- Poderia tratar-me bem uma única vez?!
- Trato-lhe bem. – estendeu a mão, dando três pequenos tapas no alto da cabeça da criada.
Constance fez um muxoxo.
- Então que faremos?
- Que barulho é este? – Alistair interrompeu o diálogo, antes que sir Ivan pudesse responder – Sou o único que sente o navio mover-se?
- É o balanço das águas, monsieur Alistair.
- Este mar não tem ondas, pequena. De fato, o navio está se movendo. Temos que sair! – tomou o braço de Constance
Tarde demais. O navio pôs-se a mover-se só. Depressa afastou-se da praia. Estavam em alto mar.
- Sir Ivan, que faremos?
- Não quero morrer neste lugar! – Alistair olhava em volta.
- Afaste-se da borda, monsieur Alistair, quem sabe o que esta nau assombrada poderá fazer-nos em seguida, ou mesmo quais bestas aquáticas possam habitar este estranho mar?
- Talvez… possamos, ou mesmo devamos usar a relíquia do duque e regressar.
- Eu concordo! Depressa, Constance! – Jules revirou as roupas e bolsos da criada, procurando a joia.
- Jules, contenha-se! – Constance afastou o plebeu, tomando o colar de ônix em seu pescoço – A relíquia do mestre está aqui. Que farei, sir Ivan? Devo dizer as mesmas palavras? – desviou o olhar do inglês para fitar, assustada, Alistair – Jules, que monsieur Alistair está fazendo? Detenha-no, vai saltar na água!
Jules, porém, com olhar catatônico e sem nada dizer, pôs-se também a dirigir-se em direção à borda do convés.
- Sir Ivan, que têm os dois?
- Ataque-os! Depois explicarei!
- Atacá-los?
- Sim, faça com que percam a consciência!
- Está pedindo-me para feri-los? Não o farei!
- Faça o que estou dizendo ou morrerão!
- Mas, sir Ivan…
- Agora, pequena!
Sem mais demora, Constance acertou um soco em cada um. Alistair logo desmaou, Jules contudo, embora atordoado, levantou-se novamente, pelo que Constance golpeou-o uma vez mais, embaixando-se em seguida para acertá-lo ainda outra vez depois de cair. Emcarou sir Ivan.
- Jules é muito resistente para um humano comum. Agora explique-me.
Sir Ivan porém, parecia preso em uma espécie de dolorosa agonia. Segurava o alto da própria cabeça com mão direita.
- Preciso que venha até aqui e cante para mim….
- Como disse? O que é tudo isto, sir Ivan? Trouxe-nos até aqui para matar-nos ou ferir-nos de alguma forma?
O inglês tinha aberto seu livro de anotações.
- Estou tentando salvar-nos. Imploro: faça o que pedi.
Constance chocou-se. Nunca imaginara sitação tal que levasse o inglês a implorar.
Capítulo I
1° episódio - 4ª, 5ª e 6ª parte
3ª Episódio - 1ª, 2ª, 3ª e 4ª parte
Capítulo II
1º episódio - 5ª. 6ª , 7ª e 8ª parte
1º Episódio - 9ª, 10ª, 11ª, 12ª e 13ª parte
2º episódio - 8ª, 9ª e 10ª parte
2º Episódio - 11ª, 12ª e 13ª parte
2º Episódio - 16ª, 17ª e 18ª parte
Sei que vai parecer que sou uma analfabeta preguiçosa, mas o aviso que vou dar agora é sério e real. Necronomicon ultrapassou a quantidade de palavras que o corretor ortográfico do word escaneia (130 mil e subindo /o/) sendo assim, este não funciona mais. Portanto, a possibilidade de vocês encontrarem um número absurdo de erros de digitação é bem grande. Caso os erros sejam muito grotescos, me avisem nos comentários ou nas asks, ou no meu twitter. Obrigada e boa leitura!
Capítulo II - Helios
4º episódio – O Abismo parte II
Arco Deserto do Sol
Se você começou a ler agora, os links para os trechos anteriores estão no fim do post. São estritamente necessários para a compreensão da história. E muito obrigada ♥.
VII
Sèrge andava apressado pelos corredores da ala dos criados. Mão-de-obra adicional fora contratada para reforçar o quadro de cozinheiras e servir à mesa. O mordomo se dividia entre provar e aprovar os pratos e bebidas para o jantar, a decoração e limpeza do hall, sala de jantar e demais espaços por onde passaria vossa majestade, os uniformes dos serviçais, e mais uma infinidade de detalhes cruciais sem o auxílio de mademoiselle Adelle que se aprontava para a cerimônia. Era tarde, o sol logo se poria. Na ala do duque, o próprio era auxiliado por Constance.
- Oh! Constance em que está pensando?! Deseja matar-me?
- És um vampiro!! E estou certa de que sequer doeu!
- Espetou-me de caso pensado!
- E por que faria tal coisa?
- Pensas vingar-se pelo vestido…
- Certamente não me agrada ter de usá-lo! Por que devo ir à cerimônia, afinal? Sou da criadagem.
- Sèrge também estará lá. É necessário ao menos que te apresentes ao rei. Sabe que vives aqui comigo e seria tremenda e imperdoável desfeita que se não lhe apresentasse diante de vossa majestade. Não se deve desfazer tremenda e imperdoávelmente de um rei, chérrie. Pensei que lhe tivesse ensinado muito diligentemente o trato com os nobres. Percebo que devemos retomar as lições.
- De modo algum! Não é necessário incomodar-se! Nem mesmo estou mais em idade de ter lições. Usarei o vestido e os sapatos de bom grado e com toda elegância que me cabe.
- A elegância que lhe cabe? – Amadeus estava em pé sobre um pequeno banco, enquanto a criada fazia pequenos ajustes em suas roupas com agulha e linha. Olhou para esta com desdém enquanto suspirava – Que pensará o rei de encontrar-se com um lenhador em trajes femininos? – apesar da voz alta, falava mais para si que para Constance – E não pense em ignorar a maquiagem, chérrie. E prender os cabelos. – agitou-se de repente, com que desceu, empurrando a criada em direção a porta – Vá. Corra e peça o auxílio do cabeleireiro tão caro que estou pagando para Adelle. Vá! Vá!
- Mestre, não posso atravessar o corredor para a ala dos hóspedes, ainda é dia!
- Oh! Sendo assim… – olhou em volta, procurando com que ocupar a criada. Por fim, uniu as mãos com olhar satisfeito – Irei ajuda-la em seu atavio!
- Ajudar-me? Mestre…
Sem dar ouvidos à argumentação lógica de Constance, tomou-a pela mão esquerda, puxando-a para seu quarto. Entrando, correu para o vestido sobre a cama e tomando-o valsou pelo quarto, como se dentro dele de fato houvesse uma moça. Constance permanecia perplexa, parada no meio do aposento. Amadeus parou de repente, olhando-a.
- Que há, chérrie? Agora agirá como se nunca lhe tivesse visto em trajes íntimos? – aproximou-se com olhar sondador – Que houve para estares tão mudada?
Arregalando os olhos como tantas vezes testemunhara monsieur Alistair fazer e corando violentamente enquanto estremecia, Constance desviou o olhar.
- Ora, nada. Que poderia ter acontecido?
- Não sei. Por isto pergunto. Agora diga-me.
- Se não há nada para dizer?
Amadeus circundou a criada, tentando fitar-lhe a expressão e o olhos.
- De fato nada sucedeu? Conte-me. É melhor contares. Que faria eu caso descobrisse por mim mesmo? Não posso imaginar!
- Falas de modo tão grave!
O duque agarrou Constance pelos braços, encarando-a muito de perto.
- Percebes o apuro que é tentar enganar-me? Esteja certa que isto pretendes para ti. Sabes o quanto lhe sou afeiçoado e o quanto me apraz mimá-la, contudo, conhece-me suficiente, e compreendes a gravidade de encobrir-me a verdade. Conte-me, Constance. Vamos!
A moça tentou expressar a maior inocência que pôde.
- Nada. Nada há para contar-lhe. O senhor mesmo diz que sempre sabe de todas as coisas e que não há motivo ou escapatória pelo qual não tomaria conhecimento de algo. Como lhe poderia esconder qualquer evento ou mudança?
O duque, contudo, não mais encarava-a. Fitava algo sobre a cama, que aparecera após mudar o vestido de posição. O pequeno livreto de anotações de sir Ivan. Ali, sobre a cama de sua criada. Correndo, tomou-o, e abrindo, sentou-se, virando as páginas apressadamente.
-Sir Ivan entregou-lhe suas anotações?
- Bem… não. Talvez se tenha esquecido…
- Propositalmente? Se há alguém que não seja descuidado ou desatento, está sem dúvida personificado em nosso inglês.
Constance ajoelhou-se em frente ao nobre, fitando o pequeno caderno em suas mãos.
- Por que sir Ivan me deixaria suas anotações?
- Eu poderia conjecturar, caso me dissessem que sucedeu no abismo. Porém, dadas as condições, sou absolutamente incapaz de imaginar qualquer coisa relacionada ao legado. – suspirou – E pensar que sou o membro mais antigo do clã!
Constance encolheu-se no chão.
- Saber que matei Jules não é suficiente para imaginar que os fatos ocorridos no abismo são chocantes demais para que lhe contemos antes que venha o rei? Mesmo o senhor, um vampiro, não poderá fazer-se indiferente e comer, e valsar, e sorrir, e agir normalmente após o relato de tais fatos. – fitava o chão – É melhor, até que mademoiselle Adelle receba o título e os convidados se vão, que permaneças ignorante sobre tal. Piores que possam ser seus pensamentos e ideias a respeito do que lá vivemos, jamais acompanharão as terríveis verdades que hão de torturarnos enquanto vivermos.
- Manterei minha curiosidade e ansiedade a respeito do abismo até depois do jantar. Contudo, não poderei esperar para ler os trechos do Necronomicon. Vamos, chérrie… – estendeu-lhe o livreto.
- Está em inglês, pode lê-lo o senhor mesmo.
- … tua leitura do inglês é mais ágil que a minha…
- Oh! Bem…
- Apesar que certamente já o terá lido ou mesmo visto algo do que descreve o livreto enquanto esteve no abismo.
- Bem… se vi, não o sei, posto que é esta a segunda vez que ponho minhas mãos nas anotações de sir Ivan. E da primeira, tudo o que li foram…
Amadeus interrompeu.
- As fatídicas palavras que a senhorita, desobedecendo-me, usou para o que, sou obrigado a supor, arruinou tua vida.
Constance baixou os olhos novamente, aterrada. Amadeus arrependeu-se de suas palavras, contudo, poucas vezes ou nunca retirava palavras que tivesse dito, mesmo à Constance. Tornou a folhear o livreto.
- Aqui… – passou os dedos sobre restos de folhas rasgadas – Faltam páginas?
Constance estremeceu.
- Sim. Jules rasgou-as. Foi na mesma ocasião em que destruiu teu anel.
- O que sucedeu a Jules pertence ao conjunto de fatos sobre os quais não devo saber antes da cerimônia de Adelle?
- Sim.
- Perturbo-a e forço a relembrar momentos desagradáveis. Em lugar disso, traduza as anotações para mim.
VIII
Assustado, Kalir viu a areia mover-se erguendo-se do chão. Desta vez contudo, não eram múmias dos antepassados mortos de Akil. Semanas antes vira aquelas criaturas formarem um exército, protegendo o templo de um enorme grupo de ladrões. Exterminaram-no em poucos minutos e seus restos foram tragados pela areia. Anubites. Criaturas altas e esguias, com cabeças que lembravam chacais ou cães selvagens, portando foices. Saltavam entre os adversários e mesmo por sobre muros altos. Não apenas eram capazes de saltar dez, doze metros, como moviam-se com tanta agilidade e destreza que golpeá-las era difícil mesmo para um experiente feiticeiro como ele. Imaginava que mesmo Asidebah teria alguma dificuldade em lutar contra tais seres. Semanas atrás foram úteis e vê-los, e testemunhar seus poderes, deixou-o aliviado, posto ser o grupo de salteadores mui numeroso. Agora, contudo, desejou ardentemente não ter que enfrentá-los. Virou-se para Asidebah, imaginando o que faria, enquanto Siva, ao seu lado preparava-se para invocar os favores de Ba-en-Aset novamente. Esperou pelo sem número de gatos novamente, porém, contemplou estupefato enquanto sua companheira de cerimônias religiosas adquiria o monstruoso aspecto da própria Ba-en-Aset. Um sacrilégio! Siva virou sua, agora, cabeça de gato sustentada por um pescoço ornado por muitos colares.
- Kalir, mova-se, ou morreremos!
Desperto pela voz de Siva, Kalir teve consciência das proporções castastróficas que o embate poderia adquirir. Decidiu, uma vez mais, apelar ao bom senso de Asidebah.
- Tudo está adquirindo um aspecto sobremodo perigoso. Crê realmente ser o confronto a única alternativa? Talvez possas dar a este conflito alguma solução pacífica. Sem que seja necessário apelar a tão grandes técnicas e feitiços. – apontou para Siva.
Asidebah, porém, sequer virou-se para olhá-lo, ignorando seu pedido.
- Eshe tem o livro e sabe usá-lo. Sabe também utilizar tantas outras magias que lhe ensinei, e para as quais não há feitiço reverso ou modo conhecido, ao menos por mim, de para-las. Poderá, caso deseje ou considere necessário, usar todo o perigoso conhecimento que tem. Os seres que criou escrevendo no livro e os que, inconscientemente despertou ou trouxe ao nosso mundo da mesma forma, são fortes, temíveis, vorazes e sedentos por sangue e carne de qualquer ser vivo. Por hora, dormem embaixo da terra ou sob o mar, todavia, estou certo que Eshe não hesitaria em trazê-los imaginando assim realizar seus intentos, mal sabendo que mesmo ela seria vítima de tão horrendos monstros. Tudo seria reduzido a horror. Caso Eshe desperte a criatura, é ainda possível fazê-la dormir novamente, porém é também possível à Eshe, com um feitiço, impedir que torne a dormir. Assim estaríamos liquidados, pois o motivo para que durma a criatura por milênios e milênios incontados é ser absolutamente impossível matá-la. Ou saciar seu desejo por horror e destruição.
- Esta criatura da qual está falando… nunca ouvi ou li menção alguma. Nenhum auto, crônica ou escritura sagrada trata de besta alguma que não se possa destruir ou matar dalguma forma. Qual o nome de tão nefasto ser?
- Tem um nome impronunciável para seres limitados como nós.
- Limitados como nós? Em definitivo, nós dois não somos o mesmo tipo de ser, Asidebah.
- Consideras, então, seja eu um tipo superior de vivente?
- Sem sombra de dúvida.
- Muito mais elevados são os poderes da criatura. Tão incompreensível é para nós, que nem mesmo somos capazes de articular-lhe o nome. Tudo o que sei e me lembro é de ser algo terrível e portar forças imensuráveis. Portanto, tudo e algo mais farei para impedir Eshe. Vá amparar teu mestre Akil. Fuja. Leve consigo Siva. Pouco ou nada restará deste lugar e tão logo eu conclua meu plano, desejará a morte caso aqui estejas.
Antes mesmo que concluísse as próprias palavras, estendeu o braço direito em direção à Siva, que sob efeito de seus poderes, voltou à forma humana. Em seguida, avançou destemidamente para o ser, agora indefinido, no qual se tornara Eshe. O céu escureu assustadoramente e enquanto saia com seu mestre e Siva, Kalir sentiu que uma feroz tempestade de areia se aproximava rapidamente, vinda do deserto. O chão passou a tremer e enormes raios rasgavam o céu, abrindo enormes crateras e destruindo árvores e casas ao tocar o solo. Imaginou se poderia alcançar um lugar seguro antes que Asidebah desse início ao seu plano para deter Eshe e porque tudo aquilo era necessário. Ou ainda, como era possível que aquilo tudo não fosse suficiente para matá-la ou ao menos detê-la? Pôde ouvir a voz de Asidebah ao longe.
- Eshe, é meu último apelo: desista.
- Não irei retroceder! É tarde! Apenas um de nós subsistirá!
- Este serei eu, Eshe. Eu… Despediu-se de todos os teus conhecidos, familiares, amigos, amados, sonhos, planos, desejos e lembranças? Pois agora que tomaste tua decisão, o lugar para onde vais, jaz no vazio do completo esquecimento e do nada!
Capítulo I
1° episódio - 4ª, 5ª e 6ª parte
3ª Episódio - 1ª, 2ª, 3ª e 4ª parte
Capítulo II
1º episódio - 5ª. 6ª , 7ª e 8ª parte
1º Episódio - 9ª, 10ª, 11ª, 12ª e 13ª parte
2º episódio - 8ª, 9ª e 10ª parte
2º Episódio - 11ª, 12ª e 13ª parte
2º Episódio - 16ª, 17ª e 18ª parte
Sei que vai parecer que sou uma analfabeta preguiçosa, mas o aviso que vou dar agora é sério e real. Necronomicon ultrapassou a quantidade de palavras que o corretor ortográfico do word escaneia (130 mil e subindo /o/) sendo assim, este não funciona mais. Portanto, a possibilidade de vocês encontrarem um número absurdo de erros de digitação é bem grande. Caso os erros sejam muito grotescos, me avisem nos comentários ou nas asks, ou no meu twitter. Obrigada e boa leitura!
Capítulo II - Helios
4º episódio – O Abismo parte II
Arco Deserto do Sol
Se você começou a ler agora, os links para os trechos anteriores estão no fim do post. São estritamente necessários para a compreensão da história. E muito obrigada ♥.
V
Constance rolava sobre a cama. Era impossível dormir com a voz nervosa e os passos apressados de mademoiselle Adelle ecoando da ala dos criados até seus ouvidos. Passara toda a noite em companhia de seu mestre, primeiro, durante a visita das irmãs Dansité, depois, apenas fazendo-lhe sala, pois este fizera questão. E agora, horas depois que o sol nascera, desejava repousar. Não se havia recuperado totalmente de sua estada no abismo. Jules. Felizmente era dia e não teria que deixar seu quarto. Algum dia seria perdoada por monsieur Alistair? Podia ouvi-lo, pelo castelo, seguindo as ordens de mademoiselle Adelle. Sentia-se feliz que estivesse totalmente recuperado. Compartilhava da desconfiança de seu senhor. Qual a razão para que Cardinale ajudasse-os? Suspeito. Desejou que a noite passasse depressa e o rei se fosse. Não tinha, porém, certeza absoluta de ser capaz de olhar o corpo sem vida de Jules. Lembravasse com viva intensidade do combate. Jules. Que fora tudo aquilo? Não tivera oportunidade de conversar com sir Ivan após o regresso. Imaginou se ele teria alguma explicação. Iria ter com ele, porém, não desejava sair do quarto. Poderia ser que encontrasse monsieur Alistair pelo caminho. Que faria à noite, durante o jantar? Seria inevitável deixar seu quarto e estar com todos, ao menos brevemente. Suspirou. Tinha vontade de chorar. Notou que alguém abria a porta. Reconheceu os passos e o cheiro de sir Ivan. Sentou-se na cama.
- O senhor deveria ao menos bater.
- Sabia que estarias vestida e acordada.
Constance escondeu o rosto abraçando os joelhos. Tentava não chorar.
- Que será de mim, sir Ivan? – incapaz de conter-se, rompeu em lágrimas, soluçando violentamente.
Sir Ivan sentou-se sobre a cama e, para surpresa de Constance, abraçou-a.
- Não chore. Não só deixas-me confuso sobre como agir, como também bem sabes não ser útil. Veja, Alistair, o motivo atual de teu pranto, não a odeia, nem tampouco ressente-se de ti. Ao contrário, não os conheço o suficiente, contudo, creio ser este o momento em que mais se faz necessário que estejam juntos, especialmente por ele. Nunca imaginaste como se sente Alistair? Perturba-se com a ideia de ser o responsável pela morte de Jules.
- Mas fui eu…
- Nas circunstâncias de então…
- Oh!
- Porém, não vá agora. Encontrarem-se neste momento resultaria apenas em mais lágrimas e soluços.
- Que pensa a respeito da presença de Cardinale entre nós?
- Não o acolheram amavelmente como fizeram a mim…
- Ora, sir Ivan! Certamente contei-lhe os relatos do mestre de como Cardinale perseguiu meu avô e todos os outros. – tornou a abraçar os joelhos, desviando os olhos do rosto do inglês – Sir Ivan… pensa que Cardinale possa realmente… possa…
- Trazer Jules de volta? Não. – mudou de tom ao notar que a criada estremecera. Segurou sua mão – Entenda, pequena, citaste agora a pouco o quanto Cardinale fora inoportuno e talvez mesmo perigoso nos últimos séculos ao clã. Atacou-a a poucos dias atrás. Por pouco não matou Alistair, a senhorita e Jules. Pensas mesmo que tão repentinamente tenha adquirido boa índole e deseje ajudar-nos? De modo algum. Que sobreveio à Cardinale durante a noite de ontem?
- Bem… ele… ele… oh! Não posso descrever! Apenas foi tão estranho!
- Que lhe disse o senhor duque a respeito de sua aparência durante as longas décadas durante as quais com ele encontrou-se?
- Disse que nunca imaginara que pudesse ter um corpo, sempre via apenas seu rosto com alguma nitidez.
- Exato. Cardinale não tem um corpo. E agora preocupa-se tanto com o corpo de Jules.
- Oh!
- Tudo isto é tão perigoso. Agora mesmo pode estar-nos ouvindo. Ou mesmo em teu quarto, conosco.
Constance teve um sobressalto e agitou-se. Saltou da cama, olhando em volta.
- Não podes pressenti-lo?
- Na realidade, posso.
- E por que alarmas-te-me?!
- Apenas desejo que compreendas que estamos vivendo em situação extrema. Minhas anotações, são ínfimas e inúteis frente às necessidades que se apresentarão doravante.
Constance estremeceu, em seguida sentiu-se intrigada. Então sir Ivan sabia de seus intentos junto ao seu mestre? Todavia, não se importava. Que homem estranho!
- Proponho buscarmos o livro de tua família.
Constance hesitou. Que diria seu senhor?
-Bem… o senhor pode imaginar quão dificultoso seja a mim e a monsieur le duque empreender uma viagem…
- Sim. Exatamente por isto iríamos eu e Alistair.
- Oh!
- Não é necessária nenhuma desconfiança. Que faria eu com o livro? Não o posso ler. Trarei-os sãos e salvos a Versailles. Alistair e o livro. Não sou um inocente qualquer disposto a ajudar, Constance. Auxilio-vos e fiz de vossa luta minha luta, contudo, há uma razão.
A criada olhou-o perplexa, respiração suspensa.
- Que propositalmente não lhe contarei.
- Ora! – Constance franziu o cenho, inflando as bochechas.
Sir Ivan riu. Era estranho vê-lo dessa forma. Então aproximou-se e beijou levemente o rosto de Constance.
- Um pouco mais e serás a mesma de sempre, pequena. – ergueu-se – Venha ter comigo caso algo a incomode ou volte a sentir-se triste. – inclinou-se ligeiramente, deixando o quarto em seguida.
Constance permaneceu alguns instantes pensativamente intrigada com toda a conversa. Em seguida ponderou que poderia acostumar-se com aquele sir Ivan. Ou… Com um salto, pôs-se de pé e abrindo a porta, investiu contra sir Ivan, que estava prestes a descer as escadas. O incompositus! Antes que pudesse golpeá-lo, porém, foi envolvida pela, agora conhecida, massa negra da espada de sir Ivan, que não apenas envolveu todo seu corpo, como apertou-o, espremendo seus braços contra as costelas e esmagando seu pescoço, deixando-a sem ar, para em seguida, erguê-la à altura dos olhos do nobre.
- Que pensa estar fazendo, pequena?
Sem poder respirar, Constance tentava em vão articular palavras. Tudo que conseguiu, porém, foram suspiros e grunhidos incompreensíveis. O inglês libertou-a, o que fez com que caísse no chão de quatro. A criada tossiu por alguns instantes, massageando o pescoço dolorido.
- Atacou-me!
- Defendi-me…
- Estivemos juntos longo tempo no abismo e em ocasião alguma agiu como acaba de fazer! Assustei-me e imaginei que pudesse ser o incompositus, ao qual não permitiria fugir novamente!
Sir Ivan respirou fundo. O incompositus. Como fora capaz de esquecer-se? Era sim muito provável que ainda rondasse o castelo ou mesmo por lá estivesse. Sentou-se ao lado de Constance, ajudando-a a recompor-se.
- Estar contigo grande parte do tempo em que permanecemos no abismo fez-me afeiçoar-me a ti grandemente. Eu apenas… – suspirou longamente- não desejo a ninguém que por ti tenha qualquer tipo de bons sentimentos vê-la na condição em que vi, tendo a terrível decisão quanto a vida ou a morte de Jules em suas mãos, para poucos minutos depois tê-lo sem vida em seus braços.
Constance encolheu-se, escondendo o rosto profundamente triste sobre os joelhos.
- Se eu ao menos tivesse sido capaz de entender o que lhe aconteceu! Eu o teria salvo. Deve-lho a vida e mais. Jamais poderei compensá-la por Jules. É minha culpa. Era eu o mais experiente e maior conhecedor dentre os quatro. Partiu de mim a ideia de procurarmos por passagens secretas. Deveria tê-los protegido, instruído e guiado, todavia permiti que se ferissem, perdessem e que lutassem até a morte. Não mereço perdão. Jamais! – tomou Constance pelos ombros – Não há meios de trazê-lo de volta, Constance, e por isso sinto-me ferido de morte! Porém, prometo por minha honra e minha vida, a qual salvaste mais de uma vez no abismo, que não descansarei ou morrerei enquanto não recuperares o legado de tua família e não realizares teu intento de oferecer ao duque uma vida sobre o sol, como os mortais, e ainda, quando isto realizar, não lhe terei retribuído ou compensado totalmente. – tirou um de seus anéis, dando-o à jovem – Teus dedos são pequenos demais para ele, porém, podes conservá-lo consigo a todo momento em um cordão ou mesmo nos bolsos. Nunca consegui entender qual fosse o poder, magia ou valor sobrenatural que em si carrega, contudo, é de minhas primeiras lembranças tê-lo comigo e, ainda que nunca tivesse sido supersticioso ou crente na sorte, agrada-me levá-lo sempre onde vou. Meu pai contou-me certa vez que pertenceu a ele e de igual modo ao meu avô. Não é como uma joia de família também, apenas dividi-mo-lo com os que nos são caros. Veja, a cada vez que é compartilhado, duplica-se, - mostrou a mão direita, onde Constance pôde ver exatamente o mesmo anel ocupando o dedo médio, do qual fora tirado instantes antes – e é como se cada portador do anel usasse a mesma joia. – fechou a mão da criada entre as suas – Deixei a Inglaterra em busca de meu mestre, somo agora esta à minha missão original: encontrar e destruir o verdadeiro causador deste terrível mal que sobreveio a ti e a Jules!
VI
Grace lutava com suas mãos e olhos. Não lhe obedeciam, de forma que era impossível tomar o vinho que Alóis lhe trouxera.
- Como contaremos a nossa família e conhecidos? Digo, que faremos? Giullian e Francis não têm parentes, contudo, nós três temos nossos pais ou irmãos! – Alfonse andava em círculos pelo hall da hospedaria.
- Alfonse, sente-se! Acordamos poucos minutos atrás. É impossível que já se tenha restabelecido. Poderá ter uma constipação! – Francis tentava aprumar os muitos tecidos com os quais prendia seus cabelos e ataviava sua indumentária – Além de que, convido a todos para hospedarem-se em meu barco…
- Crês que ainda tenha um barco? – Alóis olhava pela janela, reconhecendo a saudosa paisagem.
- De fato ainda devo ter. Perdeste completamente a habilidade de calcular o tempo, que lhe foi dada no abismo?
- Na verdade… Posso ainda calculá-lo. É óbvio que não com exatidão, visto que o tempo no abismo corre de modo indefinido, não sistemático e confuso, porém, eu diria que em nosso mundo, passaram-se cerca de duas semanas. – olhou para fora, pensativo – Talvez não nos seja tão custoso criar uma história que justifique nossa ausência durante este espaço de tempo. Grace poderia dizer que esteve no palácio comigo por todo este tempo, aprendendo música, talvez, ou apenas tomando parte nos serviços para o rei…
Todos calaram-se repentinamente, atitude seguida por Alóis. Grace aproximou-se de Giullian, que sentado sobre o balcão, os dedos das mãos entrelaçados, fitava o chão, calado.
- Giullian…
- Sentirei falta do mar de águas roxas… – ergueu a cabeça, sorrindo tristemente, fitou o chão novamente – E no fim, foi como se tivéssemos estado no abismo unicamente para receber Jules e os outros…
- Talvez Siva nos tenha enviado ao abismo para que, estando Jules sozinho após tudo o que aconteceu, o trouxéssemos de volta!
- Caso fosse esta nossa missão, falhamos miseravelmente! – Alfonse tinha uma expressão grave – Que fará agora no abismo, sozinho? Não mais tem seus amigos ou hospedaria onde possa refugiar-se ou repousar. E desta vez, caso se lhe apague o coração macabro, morrerá em definitivo!
- Nunca ninguém morre no abismo… Não foi esta uma das lições que aprendemos durante os séculos que lá passamos? – perguntou Francis.
- Contudo, que certeza podemos ter de que seja verdade, afinal? Algo de muito errado ou perigoso está acontecendo ou acontecerá em breve para que nove pessoas do mundo dos mortais tenham chegado até o abismo, e certamente nada melhor sucederá agpra que Jules lá está sozinho.
Giullian remexeu-se sobre o balcão, amargurado.
- Deveria tê-lo trazido à força!
- Talvez… – Alfonse mirou o teto, esforçando-se para pensar – Devêssemos procurar o cavalheiro inglês e os outros, não?
- Eu concordo! Como o faremos? – Grace parecia radiante de expectativa.
- Ora, eu… eu não sei! Não posso imaginar como encontrá-los! Tudo o que sabemos é que são dois franceses e um inglês.
Francis aproximou-se.
- Não será difícil encontrar uma moça negra na França. Não há escravos na França e negros forros são raros mesmo nas Américas. Pelo que entendi, Constance é livre. Além de ser filha de um homem branco. Também me lembro de algo a respeito dos quatro conhecerem um homem ou mulher da alta nobreza. Não devemos nos esquecer também que é das poucas moças que lêm… e possivelmente a única a trajar-se como homem. O inglês é igualmente muito peculiar. A França é um grande reino e nos será custoso encontrá-los, contudo, não impossível. Devemos encontrá-los e avisar a respeito de Jules.
Alóis interrompeu o entusiasmo de Francis.
- Não devemos esquecer que podem ainda estar no abismo. Ou mesmo mortos!
- Caso assim seja, ocuparemos todo o tempo que nos resta em vida procurando-os ou à tal Siva.
- Não é necessário, senhores, eis-me aqui!
Parada à porta, mesmas roupas, mesma voz, mesma expressão, mesmo olhar: Siva.
Capítulo I
1° episódio - 4ª, 5ª e 6ª parte
3ª Episódio - 1ª, 2ª, 3ª e 4ª parte
Capítulo II
1º episódio - 5ª. 6ª , 7ª e 8ª parte
1º Episódio - 9ª, 10ª, 11ª, 12ª e 13ª parte
2º episódio - 8ª, 9ª e 10ª parte
2º Episódio - 11ª, 12ª e 13ª parte
2º Episódio - 16ª, 17ª e 18ª parte
Sei que vai parecer que sou uma analfabeta preguiçosa, mas o aviso que vou dar agora é sério e real. Necronomicon ultrapassou a quantidade de palavras que o corretor ortográfico do word escaneia (estamos com mais de 125 mil, uhul /o/) sendo assim, este não funciona mais. Portanto, a possibilidade de vocês encontrarem um número absurdo de erros de digitação é bem grande. Caso os erros sejam muito grotescos, me avisem nos comentários ou nas asks, ou no meu twitter. Obrigada e boa leitura!
Capítulo II - Helios
4º episódio – O Abismo parte II
Arco Deserto do Sol
Se você começou a ler agora, os links para os trechos anteriores estão no fim do post. São estritamente necessários para a compreensão da história. E muito obrigada ♥.
III
- A quanto tempo estamos caminhando? – Alistair deixou-se cair na areia.
Constance cobriu os olhos com a mão direita, olhando para o alto.
- Não posso sequer imaginar… o Sol está a pino desde que chegamos!
- Estou cansado! Descansemos um pouco…
- De modo algum. Permanecer deitado neste sol certamente nos fará mal. – Jules abaixou-se, tentando puxar Alistair, que resistia, pelo braço – Alistair, pare com isto!
O fidalgo ria, estirado no chão.
- Não estou certo quanto a isto. Digo, este definitivamente não é um sol comum, como disse à Constance mais cedo. Ou talvez de fato seja um sol e expor-se ao sol não represente perigo à Constance.
Jules tentou disfarçar seu interessente crescente.
- Certamente seria útil e agradável caso Constance pudesse andar livremente durante o dia como todos nós…
Sir Ivan encarou-o com expressão impaciente.
- Não haja como se eu e Alistair não soubéssemos. A própria Constance não o está fazendo.
O inglês saiu, deixando Jules sozinho com seus pensamentos. Talvez, devesse tomar uma atitude efetiva tão logo regressassem. Uniu-se aos demais no esforço para que Alistair prosseguisse viagem, puxando-o pelos braços e pernas. Parecia que até mesmo sir Ivan estava se divertindo, chegando mesmo a esboçar algo como um sorriso. Ou talvez fosse apenas sua imaginação.
- Aaah!! – Constance saltou de repente, agarrando-se a sir Ivan e escondendo o rosto em seu peito – Que é isto?!
Jules, perplexo e visivelmente contrariado, acudiu-a, puxando-a para junto de si.
- Constance, que tem? Não há nada ou ninguém aqui além de nós. – apontou para o deserto em volta – Veja.
A criada permaneceu em silêncio por alguns instantes, olhando em volta o quanto podia sem virar a cabeça, apenas com os olhos.
- Parou…
- Estranhamente, logo após agarrar-se a sir Ivan, nada mais lhe aflige ou assusta?!
- Ora, Jules, que está insinuando? – desvencilhou-se do caçador, correndo adiante, longe dos três homens.
- … Constance, não fique assim braba… E… e espere por nós! – Alistair olhava confuso para o amigo.
Não foi necessário segui-la ou esforçar-se para detê-la. Poucos segundos depois, soltando um novo e ainda mais apavorado grito, Constance voltou correndo, assustada, para os braços de sir Ivan, novamente. Desta vez, não apenas apertava seus corpos com mais força um contra o outro, como chorava. Jules desesperou-se. Uma vez apenas tinha visto Constance chorar, e estava à beira da morte.
- Que está ouvindo que tanto lhe assusta, pequena? – sir Ivan virou o rosto da criada para o seu.
Alistair separou os dois, puxando Constance para si e tomando sua mão direita.
- Constance, nada nunca lhe faz ter medo ou chorar. Pare com isto por favor! Dá-me desespero!
Soltando a mão do fidalgo, a criada cobriu o rosto, derramando as palavras em meio à soluços.
- Sinto muito! Não se zanguem comigo, por favor! Talvez este lugar esteja levando-me à loucura! Ouço um ruído. Não há nada demais… não é como se fosse assustador ou algo assim. Eu… É como um barulho feito por algum animal. Não é alto e parece sair de dentro d’água. Porém, não há água por aqui… E mesmo este simples som faz-me sentir como se estivesse na iminência de morrer ou… apenas se parece com algo terrível que enche-me de pavor sobre o qual não tenho controle algum! Estou deveras embaraçada, contudo não sou capaz de controlar-me. Eu… – cobriu as orelhas de repente, encolhendo-se na areia – Oh! Novamente! Salvem-me! Salvem-me! Aaaah! – os gritos deram lugar ao choro convulso.
Jules correu, e tomando-a em seus braços e afagando-a.
- Que podemos fazer?
- Nada me ocorre. Não posso imaginar que tipo de mal tenha sobrevindo sobre a criada, talvez… – tomou seu livreto com anotações – talvez possamos encontrar algo… A reação de medo fora de controle de Constance se assemelha a algumas descrições de casos que estudei durante a juventude…
- O senhor ainda é bem jovem, sir Ivan!
- O que estava querendo dizer é que na época em que realizei estes estudos, tinha cerca de seis ou sete anos menos que o senhor tem agora.
- Oh! Desde tão jovem estuda o sobrenatural!
- Praticamente desde que nasci, acredito. É das minhas primeiras lembranças.
- Isto é tão esplêndido! Mesmo no clã não se inicia uma criança com tão pouca idade!
- Poderíamos nos ater ao problema de Constance, por favor? Digo, não desejo ser rude, porém, devem, tanto quanto eu, perceber quão grave uma situação deve se apresentar ao ponto de levá-la ao choro! – apertou a criada, que ainda chorava, contra o peito com mais força.
Constance afastou-se de Jules.
- Agradeço sua nobreza, porém, devo ser forte! – ergueu-se do chão – Nas condições atuais jamais seremos capazes de encontrar e salvar madamme la barone, devemos prosseguir. Não serei um empecilho!
Jules levantou-se do chão, encarando-a.
- Está certa quanto a isto?
A criada estendeu a mão timidamente, roçando seus dedos aos do caçador, esperando que compreendesse seu desejo.
- Sim. Esta foi a única vez em que me viu gritar e desesperar-me de pavor e a última vertendo lágrimas.
Jules segurou a mão que Constance estendera, apertando-a firmemente.
- Assim será então. Vamos resgatar madamme la barone!
Os quatro seguiram viagem. Sir Ivan e Alistair mais à frente, trocando palavras de tempos em tempos. Constance e Jules atrás destes. Em silêncio absoluto. A curtos espaços de tempo, Jules podia senti-la estremecer violentamente, a ponto de não poder mensura como era capaz de manter-se em pé. Percebia-a respirar fundo, espremer os lábios, fechando os olhos e engolindo em seco. Tão grande era a força empregada em apertar sua mão nestes momentos que imaginava, partiria seus ossos a qualquer momento. A dor era quase tão intensa quanto a provocada pelo uso do punhal amaldiçoado.
O sol continuava a pino apesar das muitas horas de caminhada, bem como o cenário em torno do grupo continuava um deserto seco infinito e em tons de amarelo.
- Cessou! Não ouço nada há um bom tempo! Seja lá o que estava a me causar tamanho pavor, calou-se! – puxou Jules pela mão, enquanto acelerava os passos – Venha, alcancemos sir Ivan e monsieur Alistair!
Prosseguiram sem percalços ou contratempos por longas horas. Apesar de todo o sol e calor, estranhamente, não sentiam sede. E mesmo estando no abismo a tanto tempo, não tinham fome. O cansaço, todavia, sobreveio mesmo a Constance. Jules era o único que permanecia disposto, visto as propriedades do sangue de Constance fazerem ainda efeito.
- Estamos nos aproximando! Posso ouvir o som do vento batendo contra a madeira nitidamente, mesmo sem concentrar-me.
Alistair protegeu os olhos com a mão, e apertando-os, tentou ver ao longe.
- Tem certeza? Não vejo nada!
Sem esperar resposta, correu até uma duna próxima, que julgou ser alta o suficiente. Após alguns instantes observando, correu de volta. Ofegante e animado, soltou as poucas informações.
- Do alto da duna é possível avistar uma mancha escura muitos quilômetros daqui. Contudo, não exerguei madeira em lugar algum!
- Oh! Contudo, estou certa do que tenho ouvido. Vento está batendo contra madeira nalgum lugar!
- Prossigamos na direção da mancha escura. É provavelmente a verdadeira passagem para o abismo.
- Sou incapaz de imaginar madamme la barone transpondo este deserto sozinha e em um de seus vestidos! Estou deveras preocupado!
Todo o cansaço de Alistair desapareceu à menção de sua irmã. Sem dar atenção aos demais, tornou a andar apressado, em direção à mancha escura que vira.
- Monsieur Alistair, espere-nos! – Constance virou-se para sir Ivan – Agora que estamos próximos, o senhor não acha que seria bom que descansássemos?
O inglês estava surpreso com o ânimo repentino de Alistair. Respondeu sem virar-se.
- A esta altura, não creio que consigamos durmir, contudo, deitar-nos ou sentar-nos por algumas horas é recomendado, certamente. Estamos caminhando a um dia ou mais.
- Um dia! Este lugar, deixa-me confuso. Mal sou capaz de pensar ou controlar-me. Não imagino como pôde calcular o tempo!
- Treinamento, Jules, treinamento. Meus pais prepararam-se e a mim para ocasiões como esta.
- Diz que caminhamos um dia sem parar… Sob o sol… Como é possível que não tenhamos desmaiado de exaustão? – olhou espantado para o frente – Não seria melhor que detessemos Alistair?
Sir Ivan permanecia impassível.
- Não. Retornará tão logo perceba que paramos.
Constance tirara o casaco e com ele forrara a areia, sentando-se. Poucos instantes depois, Alistair retornava.
- Oh!Pararam!
Sir Ivan sentou-se sobre sua longa capa.
- Por que correste sem esperar-nos?
- Bem… eu…
- Acredito sinceramente que a baronesa esteja sã e salva. Apesar de fora do nosso alcance. Descansemos. Que faremos caso, lá chegando, houverem perigos a enfrentar?
- O senhor tem razão. – a voz contudo, denotava extrema angustia.
IV
- Que foi mesmo que disse o homem de cabelos brancos?
- Que retornaríamos tão logo compreendêssemos nossa missão aqui e recobrássemos a memória, Fahne.
- Lembro-me de tudo, agora. – Fahne baixou os olhos.
- Creio que de igual modo, todos nós.
Um som, como que metal batendo violentamente contra metal, propagou-se.
Tarushi abaixou-se atrás do balcão, tomando uma caixa comum, feita de ferro. A caixa estremecia frenéticamente em suas mãos.
- O artefato despertou! – Feguro tinha uma expressão grave – Nós provocamos isto?
- Como da primeira vez… – Mooi tinha um ar mesclado de alegria e ansiedade.
- Que faremos com Jules? – Fahne tornou a observar o cadáver – Não teremos tempo para descobrir o que lhe aconteceu ou recuperar seu coração!
Gaard contemplou a caixa por alguns momentos.
- É provável que ainda não brilhe. Enquanto assim não suceder, não retornaremos. Revirem suas roupas e bolsos, vejamos o que podemos descobrir neste curto espaço de tempo! Talvez, possa utilizar minha habilidade em decifrar,entender e manipular magia para compreender porque o mataram, como o fizeram e localizar seu coração antes que seja tarde!
- A caixa está flutuando! – Tarushi tentava recuperar a caixa, que se aproximava do teto – Sua habilidade não é capaz de retardar o fenômeno? – subiu no balcão, correndo de um lado para o outro.
- Apesar de tudo o que aprendemos neste mundo, nunca fui capaz de compreendê-la.
Feguro, Fahne e Mooi reviravam Jules de modo frenético.
- Encontrei dois punhais! – Fahne correu, entregando as armas à Gaard – Depressa, que pode ver?!
Os cinco amigos fizeram silêncio, observando os punhais sobre o balcão. Gaard suspirou profunda e longamente.
- Este da direita certamente pertence ao abismo! Vejam os filigranas, rosas e oustro adereços que o decoram.
- Os dois punhais pertencem a este mundo, Mooi…
- Os dois?
Gaard tomou as armas nas mãos, analisando intrigado.
- Sim. Vejam, este que parece apenas um punhal comum, forjado em metal e decorado de forma simples também possui, em detalhes muito pequenos, o padrão dos artefatos de Jomale. Além de que, posso sentir, ainda que com sinais muito fracos, a presença de sua magia maligna. E esta ponta chamuscada, certamente é um coração macabro que se incinerou.
- Oh! Um coração macabro! Como os que ganhamos ao aqui chegar?
- Exatamente! Sendo a criada uma mestiça de humano e monstro, certamente o coração pertencia-lhe. Jules deve ter tentado arrancá-lo ou feri-la de alguma forma. Como é impossível separar um coração macabro de seu portador, este deve ter-se incinerado tão logo golpeado pelo punhal.
- Oh! Como pôde sobreviver sem o coração?
- É híbrida. Tem um coração de músculos, como qualquer mortal. Como cada um de nós tem dois corações. Isto contudo deve significar que perdeu suas habilidades sobrenaturais e não mais é imortal ou invulnerável. É necessário que a encontremos e avisemos a respeito do perigo que corre.
- Não pode usar seus poderes e manipular a magia do punhal, de forma que seja revertida e o coração torne a brilhar?
- Esta é sem dúvida uma excelente ideia, Mooi! Deixe-me ver… – tocou a lâmina chamuscada do punhal levemente – Sim, posso revertê-la. Vejo agora que o punhal não golpeou o coração em momento algum. Ao contrário, o coração, tão logo incinerou-se, alojou-se rapidamente no punhal, enquanto ainda restava alguma luz. – assumiu uma expressão confusa – Isto é tão estranho…
- Quê?! Não pode fazê-lo? – Fahne inclinou-se sobre o punhal, analisando a mancha escura e de textura áspera muito de perto.
- Sim, o brilho pode ainda ser resgatado. Mas… – virou perplexo, observando o cadáver de Jules – Não deveria ser possível com a criada a uma distância tão grande do coração. Este deveria ter-se apagado totalmente quando seus corpos se separaram tanto. – aproximou-se de Jules e inclinando-se sobre ele, enfiou a mão no buraco em seu peito.
- Em que está pensando?
- Feguro, eu seria louco caso imaginasse que este coração macabro na verdade pertence a Jules?
- Sim.
- Também penso desta forma, contudo, me parece tão lógico!
- Não, não parece lógico. Por quê um mortal comum teria um coração macabro? Aprendemos nestes longos anos que mortais comuns são mortais comuns. Os únicos a ganhar corações ao aqui chegar, fomos nós e tão logo daqui partamos, não mais os teremos. E em verdade, se pensares bem, não parece lógico nem mesmo a ti que o coração macabro pertença ao caçador.
- Sim, agora que expus minha ideia em voz alta, parece desprovida de qualquer senso!
- Detesto interromper senhores, contudo, vejam a caixa! – Tarushi apontou para o alto, afobado.
- Está brilhando! O artefato tornou a brilhar!
- A luz sempre a perturbar-nos! – Mooi subiu no balcão e tomando a caixa, abriu-a – Ainda não bate as asas. Depressa, Gaard!
- Sim!
Gaard ergueu-se de sobre Jules, ficando ereto. Contemplou o punhal por alguns segundos, concentrando-se. Então, fechando a mão em volta da lâmina, puxou a mancha chamuscada. No início, era como ter as mãos sujas de uma espécia de ferrugem negra, contudo, instantes depois, o pó tornou-se mais e mais denso, adquirindo diversas formas indefinidas. Então, passou a brilhar intensamente.
- Oh! Azul! Que coração lindo!
- Está quase pronto, Fahne, e estou certo que pertence a Jules!
- Está batendo as asas! Voltaremos para casa a qualquer momento agora! – Mooi gritou animado.
- Gaard, não teremos tempo…
- Acalme-se Feguro, só um pouco mais… Levaremos Jules conosco de volta para a França!
A esfera de luz azul agitava-se na mão de Gaard. Aos poucos, foi-se tornando mais e mais arredondada.
- Falta pouco…
- Falta pouco também para nós… – Tarushi segurava-se ao balcão. O chão tremia, bem como tudo ao redor – Vejam as paredes… estão derretendo!
- Pouco, muito pouco agora!
- Novamente sinto como se fosse morrer! Detesto esta parte! – Fahne apertava as mãos contra a cabeça.
- Está perfeito!
A esfera azul ofuscante flutuou pela sala, alojando no buraco no peito de Jules, que se fechou logo em seguida. Semelhante efeito de restauração tomou todo seu corpo, fazendo-o despertar.
- Constance! Alistair! Não!! – olhou em volta, aturdido.
Gaard estendeu-lhe a mão.
- Segure, estamos voltando para casa!
- Eu os matei?
- Lutou com seus amigos,não é assim?
- Eu… não era eu!
- Foi o punhal que trouxe consigo do nosso mundo.
- Que está dizendo?
- O punhal deu-lhe um coração macabro e controlou-o. Qual de seus três amigos arrancou-lhe o coração de carne? A monstrinha?
- Sim… – a expressão de Jules alterou-se de triste para inflamada – Como ousa referir-se a Constance desta forma!
- Foi o que lhe salvou. Sem um coração humano, não tens mais uma natureza, apenas suas lembranças e caráter restaram e desta forma a magia do punhal não lhe pode mais controlar. – estendeu a mão ao caçador novamente – O artefato não o levará de volta, segure minha mão se deseja encontrar seus amigos novamente.
Grace e Alfonse estavam já desmaiados, enquanto Francis e Alóis resistiam, movidos pela curiosidade. Jules contudo, recusou a mão de Giullian.
- Como sabes que reencontrarei Constance ao regressar? Encontraram-se? Estão vivos e bem?
- Não, porém, vasculhamos o abismo o mais que nos foi possível e não encontramos mais cadáveres ou indícios de que estivessem mortos ou feridos e ainda, corpos nunca aparecem no abismo. Ninguém morre neste lugar. Teria sido o primeiro, contudo, não estavas morto. Não toralmente. Assim sendo, caso estivessem mortos, saberíamos. Venha, segure a minha mão, não temos tempo!
- Não! Eu gostaria de ir, porém… Devo ficar! Talvez nunca mais reencontre Constance e os outros. Nunca mais verei ou falerei com Alistair, porém encontrei algo. Tenho certeza agora, depois do que me contou, que é importante e tenho algo a fazer neste mundo. Agradeço que me tenha restaurado a vida, ou a existência, que seja, porém, devo ficar.
- É loucura, homem! Dê-me a mão! Faça-o agora! Estamos sendo levados neste mesmo instante!
- Não, não voltarei! Sinto muito! Caso encontre Constance peça que me perdoe e diga-lhe… Oh!
Tarde demais. Um forte clarão dourado tomou tudo em volta e Jules ficou só, em meio ao deserto que já conhecia. Tanto a hospedaria quanto seu jardim e o mar em volta desapareceram para sempre.
Capítulo I
1° episódio - 4ª, 5ª e 6ª parte
3ª Episódio - 1ª, 2ª, 3ª e 4ª parte
Capítulo II
1º episódio - 5ª. 6ª , 7ª e 8ª parte
1º Episódio - 9ª, 10ª, 11ª, 12ª e 13ª parte
2º episódio - 8ª, 9ª e 10ª parte
2º Episódio - 11ª, 12ª e 13ª parte
2º Episódio - 16ª, 17ª e 18ª parte
3º Episódio - 17ª, 18ª e 19ª parte
Sei que vai parecer que sou uma analfabeta preguiçosa, mas o aviso que vou dar agora é sério e real. Necronomicon ultrapassou a quantidade de palavras que o corretor ortográfico do word escaneia (estamos com mais de 90 mil, uhul /o/) sendo assim, este não funciona mais. Portanto, a possibilidade de vocês encontrarem um número absurdo de erros de digitação é bem grande. Caso os erros sejam muito grotescos, me avisem nos comentários ou nas asks, ou no meu twitter. Obrigada e boa leitura! Capítulo II - Helios
4º episódio – O Abismo parte II
Arco Deserto do Sol
Se você começou a ler agora, os links para os trechos anteriores estão no fim do post. São estritamente necessários para a compreensão da história. E muito obrigada ♥.
I
Alóis sentia a cabeça pesada como pedra. Imaginou se poderia erguer-se. Em vão. Gostaria de saber se seus amigos também estavam ainda vivos. Estaria ele próprio vivo? Seria aquele o céu ou o inferno? De algum modo, sem mesmo olhar em volta, sabia não mais estar na pensão da família de Guillian. Podia ver o piso e as paredes. Eram os mesmos. Ainda assim estava certo: não estavam na hospedaria. Talvez até mesmo não mais estivessem na França. Algo era estranho e diferente da hospedaria. Talvez o cheiro. Virou a cabeça para os lados, tentando ver seus companheiros. Gracie estava ao seu lado. Suspirou aliviado ao constatar que parecia apenas dormir. Mas qual aparência, afinal, têm as pessoas logo após morrer? Nunca antes vira alguém morrer. Estendeu o braço com alguma dificuldade, tocando Gracie. O corpo estava quente. E que seria dos demais? Poderia esperar até sentir-se melhor e verificar. Recusou esta ideia. Com auxílio das mãos, tentou, novamente, levantar-se. Sucesso! Seu corpo erguia-se do chão. Um pouco mais e pôs-se de joelhos. Pouco faltava agora. Tateando a parede ao lado, apoiou-se e tomou impulso. Estava de pé, porém, a visão turva e embaçada, a forte dor de cabeça e os pés e pernas vacilantes fizeram com que caísse para trás, por cima de Francis, despertando-o.
- Feguro! – Francis empurrou-o e dois ficaram deitados no chão, lado a lado.
À menção do estranho nome, Alóis entendeu que se referia a ele e de igual modo, apesar de saber seu amigo chamar-se Francis, não o pode chamá-lo por este nome. Intrigado, notou que o mal-estar passara logo em seguida. Sentou-se, encarando o amigo.
- Desculpe, não quis machucá-lo. – ergueu-se, estendendo a mão para Francis em seguida – Precisa de ajuda para levantar-se, Tarushi?
Francis aceitou a mão do amigo.
- Feguro e Tarushi… que estará acontecendo? Digo… que aconteceu? Lembra-se de algo?
- Lembro-me claramente de sermos amigos a muitos anos… e que por algum motivo, despertei e temi que estivessem feridos ou mortos.
- E de que mais nos lembramos?
- Eu… de nada além disto. Lembrasse de algo mais?
- Sei com certeza absoluta que não conheço este lugar!
- É melhor acordar os outros…
Tarushi dirigiu-se a uma das janelas.
- Não! Não sem antes nos certificarmos de que não corremos perigo! Digo, para quê despertá-los se formos morrer em breve? Prefiro que morrar em paz, dormindo!
- Ora! Não diga semelhante coisa! Não estamos prestes a morrer.
- Então… estamos na iminência de quê? – Tarushi olhava pela janela, espantado.
Feguro aproximou-se hesitante.
- Isto em volta… é um lago?!
- Bem… me parece algo… com proporções imensas e uma espécie de líquido, certamente. Porém, que teria dado a água este tom púrpura? – seguiu em direção à porta.
- Feguro, onde vai?! Volte aqui!! Pode não ser seguro lá fora! Certamente não é! Feguro, volte aqui! – seguiu o amigo pela porta aberta – Isto é…
Era um pequeno atracadouro. Para os dois lados, uma pequena faixa de terra encontrava-se com a imensidão de águas roxas. Não havia praia ou uma faixa de areia. Na verdade, a porção seca era nada menos que o próprio jardim da hospedaria, que se encerrava de repente, dando lugar às águas, que Feguro e Tarushi decidiram não tentar descobrir se eram profundas ou se guardavam perigos e quais seriam. Voltaram para a hospedaria, estupefatos.
- Gaard, Gaard! – Tarushi sacudia o amigo
Guillian levantou-se, sentando no chão. Olhou em volta, observando Alóis e Francis, enquanto acordavam Gracie e Alfonse. Não se chamava Gaard, contudo, não se lembrava de seu nome. Tampouco conseguia chamar seus amigos pelos respectivos nomes. Estava na pensão de sua família, porém, aquela não era a pensão de sua família. Que significava tudo aquilo? Onde estavam? Por que não se lembrava de coisa alguma? Olhou em direção à janela sem levantar-se do chão. O sol brilhava intensamente lá fora. Muito mais radiante do que podia se lembrar. Então, de súbito, a hospedaria tornou-se ainda mais clara. Na verdade, sentiu que a luz iria cegá-lo. Era um homem.
- Infelizmente, não posso desejar que sejam bem-vindos. Escolheram estar aqui, contudo não o teriam feito se conhecessem a verdade. De todo modo, aqui estão e aqui permanecerão por longos séculos. Aos poucos entenderão quem são agora, que devem fazer e como. E também, quem eram e como tudo isto aconteceu. Quando isto acontecer. Retornarão.
Gaard olhou fixamente para o cadáver de Jules sentado à sua frente.
- Precisamos saber o que houve e recuperar o coração de Jules antes que voltemos ao nosso mundo!
II
- Kwa ajili yangukwu ujopo yurta iler mubuwuzu yako ri kashordu ryokuro. (Abra tuas asas e conquiste a imensidão para mim). Ri kawuikiu yurtakafartu mokirizu yako. (Abra teus braços e resgate-me.) Momo ri wewe fartau miyi wuki ri kiosho busu. (Abra teu coração e me deixe contigo habitar.) Yurtazu yu orforogy kafartu mopurti kwu ujopo! (Abra para mim os portões do infinito!)
Alistair olhou a relíquia nas mãos de Constance mais de perto.
- Novamente nada acont… Oh! – sentiu como se sua alma fosse arrebatada de dentro do corpo.
Na verdade, os quatro sentiram como se não mais tivessem corpos. Ainda assim, era como deslizar sobre uma superfície intangível e espiralada infinitamente, ora para cima, ora para baixo, ora para ambos os lados e todas as direções. Direções que sequer sabiam existir. De repente, pararam de girar e contorcer-se no infinito e sentiram que caiam. Como se despencassem de quilômetros e quilômetros de altura. Morreriam, certamente. O pouso suave parecia inacreditável. Constance foi a primeira a despertar.
- Sol! – apavorada, buscou abrigo sobre o corpo desacordado de sir Ivan e seus trajes negros.
O inglês despertou, devido à agitação e incômodo.
- Que está fazendo?
- Morrerei!
Sir Ivan tirou sua capa, dando-a a Constance e empurrando-a para longe de si em seguida.
- Se de fato estivermos no abismo, este sol não é real, ou não como o sol que conhecemos, digo, conheço, e não lhe pode causar mal.
A criada se tinha coberto totalmente com a capa, deitando de bruços no chão.
- Salve-me!
- Já lhe disse que este sol não lhe pode ferir! Levante-se do chão!
- Tua capa é tão quente!
- Estamos em meio a um deserto. Agora tire a capa e levante-se!
- Tenho medo!
- Se de fato este sol pudesse lhe ferir, já estaria morta! – deu alguns passos em volta.
Imediatamente ao notar que sir Ivan se afastava, Constance saltou do chão, seguindo-o.
- Sir Ivan, que faremos agora?!
- Sente os olhos arderem?
- … não…
- Significa, então, que de fato o sol não lhe pode ferir. – puxou a capa bruscamente, fazendo-a cair sobre a areia.
- Ora! – ergueu-se contrariada – Oh! Isto me faz perceber… nunca antes vi o mundo durante o dia! – olhou em volta entusiasmada – É tão… amarelo e igual…?! – olhou para seus pés – Isto é areia? Estou toda suja! E como coça! – pôs-se a estapear e sacudir o corpo, buscando limpar-se.
- Estamos num deserto como eu disse. Contudo, não creio que haja muito o que ver aqui no abismo, porém, sempre imaginei que seria escuro e sombrio. Não concorda?
- O senhor imaginava que fosse como o inferno. Eu, contudo, nunca acreditei em inferno. Meu mestre e eu sempre imaginávamos que, houvesse um lugar onde habitassem as criaturas sobrenaturais, este seria limpo e belo. As duas idéias estavam erradas afinal. O abismo é deserto!
- Impossível! Não haveria tanto zelo em proteger as entradas caso fosse apenas um deserto… Devemos concentrar nossos esforços em encontrar algo. Especialmente indícios de que a senhora baronesa aqui esteja. – virou-se na direção em que haviam caído – Devemos acordar Jules e Alistair.
Constance teve um sobressalto.
- Oh, sim! Esqueci-me completamente! – correu em direção à Alistair – Monsieur Alistair, está bem? Fale comigo. Monsieur Alistair…
Enquanto isso, sir Ivan cuidava em acordar Jules, não com a mesma delicadeza, certamente.
- Desperte! Poderíamos já estar mortos caso algum perigo houvesse! Vamos!
Jules sentou-se, aturdido. Baixou a cabeça, esfregando a nuca vigorosamente.
- Não me sinto bem…
- Talvez seja o efeito do ambiente das trevas.
- Trevas? Nunca antes estive sob sol tão forte!
- Não me referia a este tipo de trevas. Enfim… é muito provável que este mundo lhe faça mal por seres um mortal comum. Muito mais esforçado e destemido que a maioria, contudo, um mortal comum.
- És um mortal também…
- Sim. Sou um mortal, e sou também treinado em assuntos sobrenaturais, portanto, este ambiente não é me é oneroso.
Jules voltou os olhos para a voz de Constance, que em pé em companhia de Alistair, observava a imensidão de dunas de areia.
- Alistair parece vivaz e saudável!
Sir Ivan fitou os dois jovens ao longe por alguns instantes.
- De fato. A família Beaumont treina e ensina os seus desde a mais tenra idade, não?
Jules levantou-se com esforço.
- Entendi. Estou em evidente desvantagem. Contudo, não irei retroceder, desistir ou acovardar-me. Lutarei enquanto ainda puder mover alguma parte de meu corpo.
- É muito louvável. Contudo, por enquanto temos apenas que andar. – seguiu em direção à Constance e Alistair.
Jules respirou fundo, desejando que fosse isto suficiente para diminuir seu mal-estar, e seguiu o inglês com passos vacilantes. Ao aproximar-se, cambalou, sendo que Constance imaginou que cairia, e de fato teria acontecido, não tivesse ela amparado-o. Sentou-se, apoiando sua cabeça sobre as pernas.
- Jules…
- Não posso prosseguir… Toda minha coragem é vã comparada a incapacidade de ao menos sobreviver neste mundo. É como se o ar me fizesse mal. Prossigam sem mim… serei um peso morto!
- Não diga tal coisa! Se não fores, ficarei aqui contigo! Deitado sob este sol escaldante, certamente morrerás! E ainda que sem este sol, desconhecemos este lugar e não sabemos quais perigos poderão sobrevir-te. Não o deixarei.
Alistair inclinou-se sobre os dois.
- Nem eu tampouco!
- Dê de seu sangue a ele e prossigamos.
- Oh! Eu nem sequer imaginei esta possibilidade, sir Ivan! Tens razão, não é tão complicado resolver este problema… – preparava-se para rasgar a pele e com isso verter o próprio sangue.
- Não aceitarei. – Jules virou o rosto.
- Jules, que está dizendo?! Morrerás!
- Uma vez mais salvas minha vida! Está errado! Caso tenho que transpor este deserto, farei a custa de minhas próprias forças… E não amparado em uma mulher!
- Ora, Jules, não seja assim orgulhoso!
- Jules, não diga tal coisa… Como pensa que nos sentiríamos acaso morresse? – Alistair lançou-lhe um olhar quase tão triste quanto o que expressou ao constatar o sumiço da irmã – Ficaria tão desolado. Eu… – baixou os olhos – Para mim, é parte da família, já lhe disse. – tomou a mão esquerda do amigo – Por favor, deve entender que vivemos em um mundo diferente do que conheceu até então. Aceite o auxílio de Constance. Já a salvaste e cuidaste dela também! Constance poderia agora estar morta, perecendo no ataque do pequeno monstro de fogo ou durante a tremenda aparição de Cardinale! Como pode achar que não foi um grande feito teu tê-lo enfretado?
- Jules, por favor! Está tão pálido e gelado! Dar-te-ei meu sangue ainda que se recuse! – Constance tinha a mesma expressão de quando era necessário contrariar Amadeus – Sir Ivan e monsieur Alistair irão segurá-lo e então não poderá evitar. Até porquê, estás tão fraco!
Jules desviou o olhar por alguns instantes. Parecia resoluto.
- Jules, por favor! Tenha piedade de mim! Que farei se morreres? E prometeste fazer absolutamente toda e qualquer coisa por mim ou para mim, se bem me lembro.
O caçador virou-se para Constance.
- Está mencionando este assunto diante de sir Ivan e Alistair…
- Sim, não me importo que saibam se for isto necessário para que viva! Por favor! – acariciou sua testa, removendo os cabelos que lhe caiam no rosto – Jules…
Jules esboçou um sorriso enquanto sentava-se.
- Está bem.
Animada, Constance cortou o próprio pulso, estendendo-o em seguida a Jules, que levando-o à boca, passou a sorver o sangue. O gosto e a consistência, embora já conhecidos por ele, eram intragáveis, porém, concentrou-se na prioridade de sua missão e persistiu até a própria Constance afastar dele o braço, sinalizando ser o suficiente.
- Não tome gosto por sangue, onde estamos agora, pode ser deveras perigoso.
Jules encarou sir Ivan com estranheza.
- Jamais os machucaria.
- Não consciente, ao menos. – voltou a andar, olhando em volta.
- Eu…
- Está tudo bem, Jules, eu e Constance sabemos que nunca nos faria mal. – ajudou o amigo a ficar em pé – Sente-se melhor? Parece bem mais corado agora.
- Sinto-me ótimo! Como da outra vez…
- Outra vez…?
Constance tinha deixado os dois e seguido atrás de sir Ivan.
- Vejo apenas areia. Para onde iremos? Digo, estamos perdidos em meio a um deserto desconhecido. E o sol me incomoda deveras! Não imaginei que fosse assim… Ao menos… o mestre nunca descreveu como algo desagradável!
- Xiiiu! Concentre-se e tente ouvir algo.
- Ouvir…?
- Sim. Caso consiga ouvir alguma coisa, pode ser uma sugestão do rumo a tomar, não concorda?
- Sim! Grande ideia, sir Ivan!
- Deveria ser óbvio…
- Ora!
- Vamos, vamos! Faça silêncio e ouça!
- Está bem!
- Xiiiu!
Constance cerrou os olhos e inflou as bochechas, bufando. Contudo, sir Ivan tinha razão: ouvir era provavelmente a única forma de saber para qual lado seguir. Concentrou-se. Nada. Nenhum ruído além das respirações e corações batendo de si mesma e dos três homens. Concentrou-se um pouco mais, ignorando estes sons. Nada.
- Oh, sir Ivan, é impossível! Não ouço nada além de nós mesmos!
- Nem mesmo um minuto se passou, como espera que faça alguma diferença? Vamos, afastesse de nós alguns passos e tente ficar mais do que uns poucos instantes em silêncio, ouvindo.
A criada achou melhor não argumentar. Caso aquela ideia não desse certo, apenas usaria a relíquia novamente e voltariam ao castelo. Fez silêncio novamente, tentando ignorar as vozes de Jules e monsieur Alistair ao longe. Sentiu poder ouvir pequenos ruídos, tão baixos, tão distantes.
- Sir Ivan, posso ouvir algo!
O nobre aproximou-se.
- Vem daquele lado – apontou para a direita – e é como se o vento batasse em algo feito de madeira.
- Pode ser um vilarejo…
- Huuum… não parece algo grande… Digo, não soa como se fossem casas ou qualquer tipo de construção ou abrigo.
- De qualquer modo, iremos para este lado. Jules, Alistair, venham!
Alistair apressou-se, correndo e alcançando sir Ivan. Constance esperou por Jules, que caminhava lentamente.
- Alistair está realmente animado!
- Sim, sempre se contraria por serem poucas as oportunidades de usarmos as relíquias, armas do clã e pôr em prática nosso treinamento.
- Estou certo de que ficaria bem satisfeito em caçar! Irei levá-lo comigo quando retornarmos.
Constance segurou Jules pela mão.
- Não acha tudo tão estranho? Digo… é ensolarado, deserto e silencioso. Acho que está errado. Não deveria ser assim!
Jules puxou Constance pela mão, tornando a caminhar.
- Aprecie o sol, enquanto o perigo não nos sobrevem.
Capítulo I 1° episódio - 4ª, 5ª e 6ª parte 3ª Episódio - 1ª, 2ª, 3ª e 4ª parte Capítulo II 1º episódio - 5ª. 6ª , 7ª e 8ª parte 1º Episódio - 9ª, 10ª, 11ª, 12ª e 13ª parte 2º episódio - 8ª, 9ª e 10ª parte 2º Episódio - 11ª, 12ª e 13ª parte
Sei que vai parecer que sou uma analfabeta preguiçosa, mas o aviso que vou dar agora é sério e real. Necronomicon ultrapassou a quantidade de palavras que o corretor ortográfico do word escaneia (estamos com mais de 90 mil, uhul /o/) sendo assim, este não funciona mais. Portanto, a possibilidade de vocês encontrarem um número absurdo de erros de digitação é bem grande. Caso os erros sejam muito grotescos, me avisem nos comentários ou nas asks, ou no meu twitter. Obrigada e boa leitura! Capítulo II - Helios 3º Episódio - O Abismo Se você começou a ler agora, os links para os trechos anteriores estão no fim do post. São estritamente necessários para a compreensão da história. E muito obrigada ♥.
XVII
- Temos ainda muito tempo antes que chegue Triemé.
- Sim, que quer fazer até lá?
Amadeus apoiou-se sobre a mão direita, enquanto levava a esquerda à boca, olhando Constance pensativamente.
- Isto não! – a criada devolveu um olhar severo ao nobre – Poderíamos aproveitar este tempo livre e fazer perguntas sobre o Necronomicon à sir Ivan. – Constance desceu do caixão.
- Hum… Não. Posso fazê-lo mais tarde. – tornou a encarar Constance.
- Ora! – visivelmente contrariada, Constance deixou Amadeus, seguindo em direção à cozinha.
Sozinho, sentado de frente para o caixão, notou Amadeus que toda a agitação e barulho de Drízia cessaram. Podia ouvir sua respiração fraca e seu coração, de modo que sabia não estar morta, apenas desmaiada ou dormindo exausta. Levantou-se do chão. Decidiu que tinha o direito de importunar Constance também na cozinha. Encontrou-a sentada sobre uma das mesas, devorando restos do jantar. Assim como Adelle e Alistair, os criados haviam sido alertados a não deixarem seus quartos. Apenas Sèrge caminhava tranquilamente pelas dependências do castelo, avaliando o trabalho da criadagem e trancafiando portas e janelas. Constance comia algum dos pratos italianos de Sèrge.
- Oh, massas! Largue isto, chérrie! – Amadeus tomou o prato de Constance – Deveria tentar emagrecer. – olhou em volta, abrindo as panelas e bandejas espalhadas – Ah, veja, codornas… são bem mais leves! – despejou o conteúdo do prato pela janela – Comidas leves lhe darão a silhueta esbelta das moças inglesas!
- Sempre dizes que moças inglesas são lisas como pilastras e que mulheres devem ter curvas.
- Sim, chérrie, contudo, as curvas têm o lado correto.
- Que está insinuando?!
Ignorando a criada por completo, Amadeus colocou algumas porções de carne de codorna no prato vazio.
- Agora sim!
- Detesto carne de aves!
- Se há algo que aprendemos com a infância é que os alimentos desagradáveis nos fazem bem.
- Mestre, que está dizendo? Nem mesmo pode comer…
- Exato, mesmo o cheiro da comida me enoja e sequer posso beber água. – estendeu-lhe o prato – Vamos, coma. Um príncipe servindo-lhe um prato, é um privilégio único que não deve ser ignorado!
Constance fitou seu senhor por alguns instantes.
- Mestre, sinceramente creio que devamos dar atenção aos assuntos importantes.
- Isto é deveras importante, chérrie.
- Sabe bem que não!
- Eu assim considero. Além de que, estou já devidamente alimentado. Sendo assim, que mais pode haver de importante?
- O Necronomicon. Em lugar de tentarmos pôr as mãos nas anotações e cópias de sir Ivan deveríamos retornar à Estrasburgo e recuperar o livro. Meu livro!
Amadeus pousou o prato sobre a mesa, cruzando os braços com expressão grave.
- Não terá se queimado com partes da casa? Digo… pouco sobrou de pé.
- Contudo, muito provavelmente, monsieur le vicomte o escondesse em lugar seguro, porém, a estas alturas pode muito bem ter sido roubado! Certamente a propriedade, agora de mademoiselle Adelle, há de ter sido muitas vezes saqueada!
- Oh, Constance! Como permitiu que nos esquecêssemos?!
- Não era necessário lembrar. Saques são comuns a propriedades abandonadas…
- Non, chérrie! A nomeação de Adelle! Será amanhã que receberá por herança o título de Hercillie! Isto é sobremodo trágico! Não poderemos retornar convosco ao abismo! Na verdade, ninguém poderá. Terei que receber o rei! Oh! Nada foi providenciado, n’est-ce pas?! Isto é grave! Procure Sèrge imediatamente! E vá lembrar Adelle!
- Acabo de recordar que demoiselle disse-me que gostaria de receber alguém que pudesse lhe arrumar os cabelos…
- Oh! Irá odiar-me para sempre por isto! Deveria ser a noite mais perfeita de sua vida!
- O casamento…
- De fato acredita que se casará algum dia?
- Ora, mestre!
- Que há? – buscava disfarçar o riso – Não se irrite comigo!
- A última das irmãs Dansité já estará chegando por agora. – desceu da mesa, indo em direção às escadas.
- Non, non, non! – Amadeus agarrou-a pelos ombros, virando-a na direção das escadas que subiam aos aposentos do mordomo – Mandei-lhe que procurasse Sèrge e juntos providenciassem o jantar de nomeação de Adelle. O rei estará aqui, Constance! Em seguida vá procurar um de seus vestidos. Certamente o rei se ofenderá com uma mulher trajando calças.
- Sou uma criada, não é necessário encontrar-me com o rei.
- É a minha criada! É necessário que obedeça às minhas ordens!
Constance bufou e seguiu contrariada em direção ao quarto de Sèrge. Vestidos. Como os detestava!
Amadeus tomou o rumo de seu quarto. Era certo que Adelle trouxera o livro consigo ou escondera-o nalgum lugar. De modo algum estaria ainda na casa. Como consegui-lo? Não poderia usar suas habilidades com Adelle pois esta tinha poderes psíquicos. A única forma era procurar, faria isso quando regressassem do abismo. Seria muito melhor se pudessem descer ao abismo de posse de livro. Sentou-se. Por que tudo aquilo estava acontecendo ao clã? Onde estava Chantal?
- Minha Chantal!
Ouviu passos. Era Constance. Que rebelde! Não havia formas de fazê-la obedecer! Ergueu-se em direção à porta que se abria.
- Cons…
- Sei o que vai dizer! Contudo, ao chegar ao quarto de Sèrge, este garantiu-me que todas as providências já foram tomadas e o jantar de amanhã será o mais memorável da história da nobreza francesa! Disse também que a própria mademoiselle Adelle está à frente dos preparativos e que tudo estará conforme seu agrado e ainda, que um dos mais renomados cabeleireiros de Paris já está a caminho e deve chegar amanhã pela manhã para penteá-la.
- Oh…! – Amadeus olhou em volta – Sèrge é tão precioso, não concorda, chérrie? Digo, que faríamos sem ele?
- Teríamos outro mordomo.
- Sim, de fato… Ora, Constance!
- Não diz que o dinheiro pode comprar tudo? Pensei que bastasse retribuir a qualquer um como retribui a Sèrge… Oh! Isto é a sineta dos portões!
Antes que Amadeus pudesse dizer qualquer coisa, Constance correu. Suspirou, deixando o quarto tão vagarosamente quanto desceu as escadas em seguida. Encontrou Triemé sentada ao sofá do hall. Em pé, alguns passos à frente, estava Constance, fazendo às vezes de anfitriã. Triemé levantou-se rapidamente tão logo o viu. Inclinou-se, cumprimentando-o. O duque inclinou-se e tomou-lhe a mão direita, beijando-a.
- Acredito que tantas formalidades se façam desnecessárias. Deve desejar ir direto ao assunto.
- Oh! Eu… se o duque assim desejar…
- Trate-me por meu nome, mon amour. Em breve seremos… um só!
- Estou tão feliz e entusiasmada com tudo! Amadeus… oh! Isto é tão difícil! Digo… Conheço-o desde que sou uma criança e sempre sonhei com este momento! Ainda assim me é custoso tratar-lhe tão intimimamente…
- Isto não será um problema, chérrie. Terei-a comigo para todo o sempre, então, quaisquer preocupações são vãs. – virou-se para a criada – Pretendo aproveitar o encanto das rosas do jardim com mademoiselle. Preparei algo para ela, está na mesa da sala de jantar. Traga-o e encontre-se conosco, s’il te plâit. – deu o braço a Triemé e desapareceu na escuridão do jardim.
Constance voltou à sala de jantar. Olhando em volta, viu uma taça cheia.
- Sangue, certamente. Quando o mestre terá feito isto? – tomou a taça com cuidado, voltando para o jardim.
XVIII
- Oh! Veja! Realmente parece vivo, não?!
- Não, Fahne. De fato não parece vivo… – Tarushi tentava se controlar e não rir na presença de um morto.
- Ora… mas também, que tipo de hóspedes poderíamos ter? Não creio que alguém que venha ao abismo ou que daqui esteja saindo se importe com um defunto à mesa do hall. Ao menos temos um rosto diferente para olhar.
Gaard continuava alheio a tudo.
Dois dias se passaram e a borboleta dourada permanecia imóvel e inocente.
- Digo que devemos vendê-la.
- Não, Francis! – Gracie tomou-a para si – É tão linda! Deixe-me ficar com ela!
- A tal mulher, Siva, disse-nos que tinha qualquer espécie de poder mágico ou bruxaria… ou que não era algum tipo de bruxaria, não importa. Contudo já se passaram dois dias e o tal objeto nada fez. Minha vida permanece igual e a de todos. Dê-me. Irei vendê-la… Dou-te o dinheiro e compras alguma jóia para ti. Esta borboleta nem ao menos tem um cordão ou broche com que possa pendurá-la no corpo ou prendê-la nalguma roupa.
Alóis agitou-se.
- Parem de discutir. Vejam! – apontou espantado para a borboleta na mão de Fahne – O que disse a mulher? Que as asas se moveriam novamente, não é mesmo?
- Tornou a brilhar! – Alfonse arregalou os olhos – Veja, Giullian!
Giullian aproximou-se hesitante.
- Isto pode ser muito ruim!
- A mulher disse que não mais seria necessário preocupar-nos com os problemas deste mundo. Como poderia ser algo ruim?
- Pode significar que teremos outros tipos de problemas, Alóis. – sentiu que alguém agarrava seu braço, era Gracie.
- As paredes estão… se desmanchando? Que é isto?
Todos olharam em volta, horrorizados. Como a neve derretendo ao fim do inverno, as paredes, móveis, objetos e eles próprios pareciam se desmanchar.
- Não quero morrer, Giullian, ajude-nos!
- Sinto muito, Gracie, não há nada que eu possa fazer!
- A culpa é toda minha. – Francis parecia visivelmente aterrado de arrependimento e tristeza.
- Não se lamente assim. Qualquer um de nós poderia ter-se livrado do artefato nestes dois dias. – Alfonse teve que reunir todas as suas últimas forças para proferir estas palavras.
Todos sentiram ser o último instante de suas vidas. Então perderam a consciência.
XIX
Triemé ouviu passos atrás de si. Era Constance. Trazia consigo uma taça. Sentiu-se em êxtase. Experimentaria o vinho bebido pelos nobres! Fitou a criada. Animava-a a ideia de com ela enredar amizade. Era conhecida na França pelos estudos pagos por monsieur le duque para que se tivesse tornado sua companhia de luxo. E mesmo seu pai, diziam, era um fidalgo. Imaginou os olhares invejosos de todos em seu vilarejo por ocasião de seu casamento. Olhando em volta, admirou a suntuosidade dos jardins. Eram fabulosos. Viveria ali. Era como um conto de fadas. Seria motivo de muito orgulho aos seus pais.
- Mademoiselle…
Tomou a taça oferecida por Constance. Encarando o duque sorrindente, sorveu alguns goles. O sabor era horrível e a consistência deu-lhe um estranho asco. Seriam as bebidas dos nobres tão diferentes e a falta de berço tão significante a ponto de não permitir que se agradasse do vinho? Tentou disfarçar o desconforto, contudo, não pôde evitar tossir.
- Não lhe agradou?
- De modo algum, monsieur le duque… eu… apenas não estou habituada! Aprenderei a gostar, certamente!
- Pensa assim? Beba um pouco mais, então!
Triemé olhou para o líquido dentro da taça. Notou então a aparência turva e viscosa. Certamente não seria vinho. Ao menos nenhum dos que bebera até então. Que espécie de bebida poderia ser? Não lhe parecia agradável e gostaria de não ter que bebê-la uma vez mais, porém, não estragaria a única oportunidade de sua vida de achegar-se à alta nobreza da França. Ouvira dizer que dali a poucos dias o próprio rei visitaria o castelo de monsieur le duque e que outros nobres e fidalgos lá estavam hospedados. Respirou fundo. Não era tão ruim assim. Talvez se não respirasse enquanto bebia? Virou a taça de uma vez. Aparentemente, sua ideia dera certo. Perto do fim, contudo, o asco tornou-se inevitável, pelo que tossiu e pôs para fora parte do líquido que bebera. Que vexame! Que estariam pensando o duque e sua criada? Tentou recompor-se.
- Pardon… eu…
- Xiiiiu – Amadeus fez um gesto afetado com a mão – Não se desculpe, chérrie, é natural que humanos comuns assim reajam à ingestão de sangue.
Triemé limpava o rosto com um lenço oferecido por Constance. Congelou assustada.
- Monsieur le duque disse sangue?
- Oui. Sangue humano.
Triemé olhava ora para Constance ora para o vampiro, confusa.
- Que quer dizer com isto? Digo, sangue… Como pode ser? – descontrolou-se – Sangue humano o senhor diz. É uma espécie de trova, não? Não pode ser verdade! Diga-me que não me deram sangue. Digam-me que não bebi uma taça cheia de sangue! Onde… onde poderiam encontrar tanto? Estão apenas mentindo para mim, não?
Amadeus tomou o lenço, limpando o rosto e colo de Triemé, para em seguida tomar-lhe pela mão e arrastá-la em direção ao centro do jardim.
- Quero que veja algo, mon amour. Constance, venha!
Alguns passos em direção ao centro do jardim e Triemé pôde divisar, iluminado pelo lua, o caixão.
- Que é aquilo?
- Um caixão, chérrie!
A moça pôs-se a gritar. Seria tudo aquilo um pesadelo? Primeiro bebera sangue, agora estava diante de um caixão. Tentaria o duque nele trancá-la? Talvez a enterrasse viva! Tentou fugir, o duque porém era muito mais forte do que imaginara. Sentiu que seu braço se partiria ao meio.
- Por favor, deixe-me! Deixe-me! Enviaste uma carta, dizendo pretender casar-se comigo e agora me fazes isto!
Os gritos de Triemé despertaram Drízia que se pôs a gritar e debater-se dentro do caixão.
- Alguém está dentro do caixão! Que é isto?! Que espécie de pessoas são?!
Constance aproximou-se calmamente do esquife.
- Alguém não, mademoiselle. Tuas irmãs estão dentro do caixão. – abriu a tampa.
Imediatamente Drízia saltou para fora. Triemé gritou ainda mais alto, petrificada diante da imagem da irmã completamente nua saltando para fora do esquife. Abraçou-a.
- Drízia, que está acontecendo aqui? Morrerás de frio! Que fazes na casa de monsieur le duque?
A irmã mais velha tentava aquecer-se junto a irmã caçula
- Emboscaram a nós três. Não serei morta pelo frio.
- Três? Que está dizendo?
- Olhe dentro do caixão, demoiselle…
Temerosa, Triemé tentou se aproximar.
- Não, Triemé, é Anastácia quem está lá. – Drízia puxava a irmã mais nova pelo braço – Eles a mataram! O duque bebeu seu sangue! Depois trancaram-me junto ao seu corpo neste caixão!
Triemé parou, congelada. O sangue que bebera.
- Disse que monsieur le duque bebeu o sangue de Anastácia?!
- Oui, chérrie. O sangue que lhe ofereci, é o sangue de tua irmã do meio.
- Bebeste o sangue de nossa irmã?! – Drízia desvencilhou-se de Triemé, empurrando-a ao chão – Bruxa!! É um demônio como ele, agora! Demônio! Demônio!
Triemé tentava erguer-se enquanto acariciava as mãos, feridas durante a queda.
- Não diga tal coisa, Drízia! Como eu poderia saber?! Oh, meu Deus! Perdoe-me, Senhor! Perdão, perdão! – encolheu-se no chão, chorando – Irei para o inferno!
- Irá para o fosso, demoiselle! – Constance puxou-a pelos cabelos, entregando-a a Amadeus.
Tão logo encarou Amadeus em sua forma de vampiro, Triemé desesperou-se sobremodo, debatendo-se violentamente e clamando de forma vigorosa. Em vão. Amadeus mordeu-lhe o pulso, bebendo todo seu sangue. Deixou o corpo cair inerte, aos pés de Drízia.
- Esta é a primeira vez que vejo uma mulher assustar-se ao vê-lo em sua aparência real, mestre.
- Digo o mesmo. Estou bastante surpreso. Nunca imaginei que isto fosse possível.
- Talvez o livro tenha uma explicação para tal.
- É provável. Talvez mesmo sir Ivan possa explicar-nos.
Enquanto assim dialogavam, Drízia abaixara-se e tomando o corpo da irmã, abraçou-o chorando. Amadeus suspirou. Constance notou o quanto sangue lhe fazia bem. Parecia ainda mais belo, forte e jovial. O duque abaixou-se, tomando Drízia pelos braços delicadamente. Enxugou-lhe as lágrimas com as mãos.
- Veja o lado bom, chérrie. É a tua vez. O sofrimento acabou.
- Por que me fizeste isto? Por que tive de ser a última?
- Nunca uma mulher apresenta beleza tal como quando em perigo de morte. Lágrimas e sofrimento fazem-nas tão frágeis e dóceis. Enternece-me de modo que não posso mensurar. Além de que, Jacó teria vivido bem mais feliz não fosse a rivalidade e inveja de seus filhos.
- Que disse? Eu…
- Mademoiselle deveria ter prestado atenção maior às aulas de catecismo. Agora prestes a morrer… Como foi a vida que levou, demoiselle? Irá para o inferno, certamente!
- Não! Fui uma boa filha e uma boa cristã!
- Está morrendo pelas mãos de um demônio. Certamente, ao chegares ao inferno logo encontrarás – Constance aproximou-se, encarando-a gravemente – nosso mestre, Satanás!
Drízia preparou-se para gritar, mas tão logo tomou fôlego, Amadeus mordeu-lhe o pescoço, bebendo todo o sangue.
Capítulo I 1° episódio - 4ª, 5ª e 6ª parte 3ª Episódio - 1ª, 2ª, 3ª e 4ª parte Capítulo II 1º episódio - 5ª. 6ª , 7ª e 8ª parte 1º Episódio - 9ª, 10ª, 11ª, 12ª e 13ª parte 2º episódio - 8ª, 9ª e 10ª parte 2º Episódio - 11ª, 12ª e 13ª parte
Sei que vai parecer que sou uma analfabeta preguiçosa, mas o aviso que vou dar agora é sério e real. Necronomicon ultrapassou a quantidade de palavras que o corretor ortográfico do word escaneia (estamos com mais de 90 mil, uhul /o/) sendo assim, este não funciona mais. Portanto, a possibilidade de vocês encontrarem um número absurdo de erros de digitação é bem grande. Caso os erros sejam muito grotescos, me avisem nos comentários ou nas asks, ou no meu twitter. Obrigada e boa leitura! Capítulo II - Helios 3º Episódio - O Abismo Se você começou a ler agora, os links para os trechos anteriores estão no fim do post. São estritamente necessários para a compreensão da história. E muito obrigada ♥.
XVI
Amadeus sorriu exultante. Contudo, hesitou por alguns momentos.
- Que acha, chérrie?
Não obtendo resposta, olhou em volta, procurando sua criada. Nenhum sinal de Constance na sala de jantar. Voltou-se ameaçadoramente para as irmãs.
- Não ousem tentar fugir ou deixar a sala de jantar!
Saiu, para encontrar a criada sentada ao sofá do hall. Apoiada sobre os joelhos, fitava o chão. O rosto como o de alguém que jamais sorrira uma única vez em toda a vida. À presença de Amadeus no hall, Constance permaneceu alheia e absorta em seus pensamentos. O vampiro aproximou-se, ajoelhando-se ao seu lado.
- Chérrie… já lhe disse, certamente há um bom motivo para que Cardinalle deseje ir até o abismo e trazer de volta o corpo de Jules.
Constance teve um sobressalto e encarou o duque como se tomasse um susto.
- Eu apenas pensava… – voltou-se para seu lado esquerdo – Nunca antes tivemos hóspedes no castelo por ocasião… de suas visitas para o jantar. Digo… Como estarão mademoiselle Adelle e monsieur Alistair? Imagino que certamente sir Ivan há de ter ouvido ou mesmo vivido situações de extremo horror, contudo, demoiselle certamente estará petrificada de terror.
Amadeus sentou-se ao lado da criada.
- Está certa em sua preocupação. – suspirou longamente – Estava tão feliz apreciando meu espetáculo! Encerremos de uma vez o pranto. – acariciou, com seus dedos gelados, a face de Constance – Traga o meu caixão para o centro do jardim.
Concluídas estas palavras, levantou-se do sofá e seguiu novamente para sala de jantar, parando à porta.
- Anastácia. – parado sob a porta, a pose rija, estendeu-lhe a mão.
Encolhida, de frio e medo, e tremendo violentamente Anastácia virou-se em direção à porta. Saltando de sobre a mesa, Drízia agarrou-se à irmã.
- Não! Não me deixe só! Não quero morrer só! Certamente o duque reservou-me um fim terrível e doloroso!
Anastácia tomou as mãos da irmã.
- Também penso assim… Que Deus tenha piedade de sua alma e toque o coração de monsieur le duque, se um coração tiver. Eu, porém, não suporto mais o terror e a angústia de tamanha ansiedade e medo! A possibilidade de abreviar meu sofrimento apresentou-se a mim e eu a tomarei. Perdoe-me, minha irmã! Perdoe-me!
- Irei também eu! Tampouco posso suportar esta agonia! – tentou caminhar ao lado da irmã, rumo à porta.
Amadeus recostou-se ao umbral, observando friamente. Ao aproximaram-se, temerosas, as irmãs, a aparência mortal deu lugar aos dentes crescidos e olhos muito vivos e claros. Adquirira sua forma de vampiro, acentuando a beleza das formas de seu rosto e o toque acetinado e alvo de sua pele. Posto estivesse neste momento em sua aparência sobrenatural, não assustaram-se, contudo, Drízia e Anastácia. Ao contrário. Atração e desejo mesclaram-se ao medo e terror de outrora. Um passo e estava frente à Drízia.
- Aprecio tua solicitude em oferecer-me teu sangue, chérrie, contudo, permanecerás aqui um pouco mais.
- Irei! – Drízia soluçou.
Amadeus inclinou-se em direção à jovem. Expressão e voz irresistivelmente sedutoras.
- Não. Não pode mover-se.
Então Drízia notou que seus braços e pernas estavam imóveis. Não como simples objetos inanimados mas como fossem feitos da mais sólida rocha. Caiu sobre os joelhos para em seguida esparramar-se ao chão, incapaz de mover um único músculo.
- Que fez com Drízia?
- Apenas desejo que esteja ainda na sala de jantar quando voltarmos eu e mà Constance. Não sente dor, se isto que lhe preocupa. - tomou Anastácia pela mão, guiando-a até o jardim.
Do lado de fora do castelo, Anastácia encolhia-se devido ao sereno gelado da noite. Divisou ao longe alguém que imaginou ser a criada. Estava próxima a um móvel. Não pôde associar a silhueta no escuro a nenhuma peça conhecida ou de que se recordasse. Seguiu andando, guiada pela mão de Amadeus. O vento cortante fazia seus longos e ondulados cabelos castanhos tocarem-lhe a face a curtos intervalos de tempo. Ergueu o rosto, contemplando sua beleza. Por alguns instantes as fantasias e desejos que nutria pelo duque aplacaram o medo e a repulsa. Não seria talvez, a morte bela de que falara a criada, momentos de luxúria e prazer em seu leito? Voltou os olhos para a frente e o horror voltou a tomar seus pensamentos. Um caixão. A criada do duque não apenas permanecia tranquilamente ao lado deste, como também, acabara de sentar-se sobre a tampa fechada. Pararam. Não tinha dúvidas: era um caixão. Atemorizou-se sobremodo. Os poucos instantes admirando a beleza do duque desapareceram e deram lugar ao desespero de sentir a morte tragando-lhe a existência sem piedade e com requintes de luxuriosa crueldade. Sentiu que o duque recostava a cabeça à sua.
- Este caixão não é para ti, chérrie.
- Drízia…
- Non. Ninguém de quem cujo sangue me alimento recebe algo como um sepultamento. Não servirá para Drízia, tampouco. – soltou a mão da moça, ficando de frente para ela – É meu, Anastácia. – pousou a mão sobre o esquife – Meu leito, sobre o qual muitas vezes fantasiaste. É onde repouso de minhas jornadas em busca de sangue.
Anastácia sentiu a cabeça fervilhar. Teve certeza de que enlouqueceria. Sentiu que o sereno aumentava. A chuva fina que caia agora, contudo, era quente. Imaginou que o medo lhe tivesse subtraído por completo a sanidade. Fitando o duque, viu-o olhar para cima. Confusa como estava e apenas aguardando o momento de seu derradeiro suspiro, imitou o gesto do nobre. Ouro! Algo como flocos dourados caíam do céu ao mesmo tempo em que a brisa trazia quantidade surpreendente de perfume e pétalas de rosas. O duque lhe encarava, sorrindo.
- Disse que mà Constance é um primor! Sente-se aquecida?
Sim, o frio passara. Anastácia estava ainda deslumbrada com a visão do jardim, repleto de rosas, envolvido em dourado e vermelho. Olhou novamente para o duque. A beleza se lhe acentuara grandemente. Sentiu que seria aquele o momento. Estava certa. Amadeus aproximou-se, tomando-a nos braços. Anastácia não ofereceu resistência. Viu os dentes, grandes e afiados como presas, chegarem-se mais e mais. Temeu a dor por instantes, porém, em seguida, entregou-se, jogando a cabeça para trás e oferecendo o pescoço. Era assim nos livros e histórias sobre vampiros, ao menos. Sentiu rasgar-se-lhe a pele. E já não sentia mais nada.
Constance desceu do caixão. Abrindo-o, tomou o corpo sem vida de Anastácia, ajeitando-o no esquife de seu senhor. Fechou a tampa, sentando-se novamente.
- E agora?
Amadeus ignorou a pergunta. Tomando a mão direita de Constance, pôs-se a beijá-la.
- Tuas habilidades sobrenaturais são tão preciosas, chérrie!
- Servem apenas para agradar-te!
- Exatamente por isto!
Constance suspirou.
- Passaremos aqui o resto da noite? Mademoiselle Drízia já terá morrido de frio por estas horas.
Amadeus sentou-se sobre o caixão ao lado da criada.
- Sinto-me mais bem disposto agora. – puxou Constance para junto de si com o braço esquerdo.
- Mesmo o calor de minha chuva dourada ou do sangue fresco não são capazes de aquecer teu corpo!
- Um defunto!
Constance e Amadeus viraram em direção à voz de Cardinale, que surgia de entre as roseiras, caminhando despreocupadamente.
- E sabemos agora que é uma gárgula. Como tal, a aversão pelo cadáver andante será totalmente natural. Muito maiior e mais acentuada do que a teriam os mortais comuns.
Sem afastar-se de Constance, Amadeus lançou-lhe um olhar repugnado.
- Somos apenas aliados. Não lhe convidei para minha diversão! Desapareça!
- Já está fazendo isto. – Constance apontava para algo pouco abaixo do peito de Cardinale.
- Oh! – com a mão Cardinale tapou o lugar onde o corpo mortal que apresentava estava dando lugar à abundante luz, desaparecendo diante do duque e sua criada logo em seguida.
- Isto é tão assustador!
- Na verdade acho assustador que possa parecer humano. Durante os meus mais de duzentos anos apenas pude divisar-lhe o rosto. Então surgiu como um mortal ontem à noite! Nunca imaginei que poderia tocar-lhe as mãos!
- Tocaram-se?
- Se nos tocamos? Ora… que olhar é este, Constance?!
- Sinceramente penso que a mademoiselle esteja morrendo, mestre. Está satisfeito com o sangue de duas mulheres? É suficiente?
- Nenhuma quantidade de sangue será jamais suficiente! – tirou a capa, entregando-a a Constance – Venha, pretendo que Drízia seja a última.
- Isto parece tamanho ressentimento… ou paixão!
Amadeus parou de repente. Virou-se para Constance. Sussurrava.
- Chérrie, um vulto! Alguém está no jardim!
Constance respondeu, igualmente sussurrando, em deboche.
- Sim, mestre, aquele é sir Ivan.
- Oh! Está sentando tão tranquilamente… Está lendo?
- Aparentemente. Está tão concentrado em teu espetáculo real que ignoras por completo o que se passa ao redor. Cardinale estava a tempos no centro do jardim observando-nos.
- Espanta-me que esteja tão sereno. – o duque ainda se detinha em observar o hóspede.
- Exatamente como pensei… pouca coisa pode alterar seu estado de espírito.
Amadeus mudou a expressão de repente, encarando Constance com gravidade.
- Que viram no abismo, chérrie?
Constance fitou-o por instantes. Então desviou o olhar, alerta.
- Teu jantar está fugindo!
Amadeus voltou-se na direção em que apontava a criada, sorrindo.
- Deixemos que tente.
Estavam já no jardim de azul, pelo que procuraram um banco em que sentar, de onde testemunharam enquanto Drízia subia rapidamente as escadas que davam na pequena sala onde Fabiam vigiava o castelo, para em seguida, descer, empurrada pelo guarda, então avistar sir Ivan, buscando com ele ajuda.
- Venha, chérrie, necessito testemunhar a reação de sir Ivan.
Aproximaram-se rápida e silenciosamente. Drízia havia-se agarrado às pernas do nobre inglês, pranteando copiosamente.
- O senhor imagina quem realmente seja o duque?!
- A senhorita certamente não imagina quem realmente eu seja.
Drízia encolheu-se.
- Que está dizendo?
Sir Ivan fechou o livro que tinha consigo, aproximando-se.
- Meu conselho é que não resista. Não sobreviverá, moça.
- Não, não sobreviverá, Drízia.
Os dois voltaram-se em direção a voz do duque.
- Ia oferecer-lhe minha capa, contudo, creio que a toalha de minha mesa de jantar esteja lhe servindo bem. – virou-se para a criada – Constance, Drízia parece cansada, conduza-a a algum lugar com que descanse.
Constance olhou em volta.
- Bem… pelos jardins vejo apenas… Farei o que me pede.
Tomou Drízia, que resistia veemente, nos braços, levando-a em direção ao caixão. Toda a força empregada por Drízia em se bater e tentar resistir foi inútil, Constance carregou-a como fosse uma simples boneca.
- Está radiante. Muito me agrada poder observar o real comportamento de um vampiro e o efeito da falta e posterior reposição de sangue em criaturas de sua linhagem. – sir Ivan inclinou-se sobre o livreto, fazendo anotações.
- Folgo que esteja satisfeito, meu caro. – imaginou se seria aquele o livro com traduções de trechos do Necronomicon, de que lhe falara Constance.
- Talvez esteja satisfeito e pretenda deixar a última das irmãs…?
- Esta será a última. – fez uma breve mesura – Se me permite…
- Claro, como não?
Foram interrompidos pelos gritos de Drízia: Constance abrira o caixão e tomando a toalha com que se cobria, jogara a jovem sobre o corpo da irmã morta, não apenas fechando a tampa novamente, como também trancando-a, com a mesma magia que usara para forçar seu mestre a repousar. Amadeus aproximou-se.
- Tomou-lhe a toalha…
Drízia gritava escandalosa e estridentemente enquanto se debatia, tentando livrar-se da horrível prisão.
- Teu caixão possui um luxuoso forro de veludo, creio ser quente o bastante. Que faremos em seguida?
Amadeus sentou-se no chão, em frente.
- Mestre,não faça isto! Poderá manchar tua camisa branca.
- Tenho muitas e, de certa forma, bem semelhantes umas às outras.
- Sim… de fato… bem semelhantes. O mesmo pode-se dizer das calças…
- Como?
- Ora, nada.
- Sente-se ao meu lado.
- Não, obrigada! Gosto das roupas que estou usando esta noite e não tenho tantas similares a estas. Diga-me que faremos em seguida…
- O medo de Drízia me apraz, em definitivo… Muito provavelmente por ser tão bela e feminina. Esperarei que chegue Triemé.
- Não! Minha pobre irmã! Deixe minha família em paz! Demônio! Irão para a fogueira. Todos! Darão por nossa falta! Serão condenados ao inferno.
Constance abaixou-se ao lado do caixão na direção onde, imaginava, estava a cabeça de Drízia, de modo que poderia ouvi-la.
- O inferno, mademoiselle, é estar viva e dividir o caixão com o corpo nu da irmã morta.
Os gritos e imprecações odiosas de Drízia deram lugar a um clamor dolorido e lamurioso.
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