Cento e trinta e seis mil palavras (ou mais) se você leu até aqui, parabéns. Fato é que a correção do Word não funciona mais com esta quantidade enorme de caracteres, então, os erros de digitação fatalmente passarão despercebidos por mim. Paciência por favor, um dia irei revisar todas estas mais de 130 mil palavras, até lá caso os erros sejam muito grotescos, me avisem nos comentários ou nas asks, ou no meu twitter. Obrigada e boa leitura!
Capítulo II - Helios
4º episódio – O Abismo parte II
Arco Deserto do Sol
Se você começou a ler agora, os links para os trechos anteriores estão no fim do post. São estritamente necessários para a compreensão da história. E muito obrigada ♥.
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Com o braço esquerdo abraçando a cintura de Constance, Amadeus e a criada folheavam as anotações de sir Ivan. De tempos em tempos, o vampiro detinha-se em alguma página, contudo, tão longo Constance iniciava a leitura, o duque tornava a folhear.
- Mestre…!
- Era sobre o incompositus, chérrie, sir Ivan já explicou-nos a respeito.
- Ora… mas eu gostaria…
- Gostaria de atender-me.
- Hunf!
- Pare de resmungar… – beijou a criada nos cabelos, empurrando-a em seguida e tomando o livreto com as duas mãos.
Constance tornou a aproximar-se, olhando o livro por cima do ombro de seu senhor.
- Quero algo que me desperte o interesse, chérrie, não necessito ler sobre vampiros, ou gárgulas, abominações, ou… bem, nada do que já conheçamos ou tenhamos visto.
- Eu porém considero que ainda que já tenhamos encontrado ou mesmo sejamos da espécie de criatura em questão, seria-nos de grande valia saber que diz o livro a respeito.
- Contudo, nem todas as anotações são referentes a trechos do livro, chérrie.
- Pensei ter dito que fosse lento para ler em inglês…
Amadeus lançou um rápido olhar faceiro para a criada, desviando-o logo em seguida e tornando ao livreto.
- Aqui, Constance, leia isto, s’il te plaît.
- … Ugus Kaajaan…
- Isto eu mesmo posso ler, Constance! Traduza o nome em inglês! Veja, esta página de trás… – tomou novamente o livreto para si, virando a página – Um pequeno esboço do animal que lhe atacou semanas atrás.
- Oh! – a criada pegou o livro novamente – Porém, a página que o descreve seria esta que me mostrou ou a posterior?
- Leia sobre o Ugus Kaajaan. Fire… é a palavra dos ingleses para fogo, não?
- Bem… sim… Isto… Fire Walking… huuum… O Fogo que Anda? Fogo Andante?
- Não importa a tradução correta do nome, Constance, leia as anotações sobre.
- Bem, aqui diz… “o nome dado a criatura está no idioma letão… pois era esta a língua falada pelos primeiros mortais a encontrá-la. Huuum… a criatura de pequeno porte aparenta inocente fragilidade apesar de apresentar estranhas e brilhantes cores, algo como um tom chamejante no que trataríamos comumente por pelos.”
- Prossiga, chérrie.
- Ora, não é tão simples!
- Pare de reclamar e leia.
- Ora!
A criada tomou fôlego, enquanto tentava traduzir de forma adiantada algumas palavras.
- O texto segue: “A semelhança com um pequeno animal canino ou felino confere-lhe extrema facilidade para atrair caçadores, cientistas, estudiosos, crianças e toda sorte de curiosos, dos quais, matando-os, alimenta-se de suas carnes, ossos, vísceras, pele, carcaça e mesmo olhos e cabelos.” Oh! Que asco!
- Lendo, chérrie, lendo…
- “Do que foi possível aos poucos mortais com conhecimentos e habilidades próprios ao estudo do sobrenatural apurar, é-nos estranho concluir que a criatura, inexplicavelmente, possui o corpo, diretamente sobre a carne, revestido de uma espécie medonha de fogo mágico, para a qual se faz necessária uma quantidade enorme de água, a fim de cessar. As tais chamas sobrenaturais queimam todo e qualquer tipo de superfície ou material conhecido, não poupando mesmo o solo. Quanto à criatura, tem esta real e preponderante instinto asssassino e sanguinário, além de apetite insaciável, com que não hesita, ao contrário busca constantemente, atacar a toda criatura viva da qual possa alimentar-se de sua carne e sangue. Além de que, seu comportamento denota indícios de que lhe compraz causar sofrimento e horror a suas vítimas, visto matar de forma lenta e torturante.”
- Corresponde quase que totalmente com tudo o que observamos na criatura, porém, se de fato é como está descrita nas anotações, porque atacou apenas a ti, tendo passado tanto tempo sendo perseguida por Jules? Veja o que dizem as anotações quanto a possibilidade de controlar ou dar ordens à criatura.
- Huu… - Constance folheou as anotações – Não há mais nada a respeito.
- Então… foi uma leitura inútil?! Que agradável! Dê-me aqui novamente!
Constance permaneceu em silêncio, observando enquanto Amadeus virava as páginas com acentuada impaciência. Deteve-o de repente.
- Mestre, que é aquilo?!
O vampiro voltou quatro páginas, lentamente.
- Oh! Esta é sem dúvida um gravura muito melhor cuidada que as demais.
- Parece ter sido costurada por cima da costura original do livro, veja!
- De fato. Veja, é como as ilustrações dos livros dos grandes autores, ou mesmo mapas cartografados. É de qualidade ímpar. Sir Ivan o transferiu de algum lugar.
Constance examinava minuciosamente o livreto, esfregando seu rosto nas páginas.
- A costura sobre a original é também muito bem feita. – afastou o livro – E esta imagem horrenda, que será? Por que terá sir Ivan empenhado tanto trabalho em juntar algo assim às suas anotações?
- Leia a descrição e saberemos.
- Hu…u…um. – Constance olhava confusa para a página aberta diante de si. – Huuum… eeer…
- Que tem, chérrie? É por acaso algum feitiço de mudez?
Constance franziu o cenho, irritada.
- Não consigo ler esta palavra. Igualmente, duvido que seja capaz. – estendeu-lhe o livreto.
O duque examinou a página que a criada lhe mostrava por alguns segundos.
- Que língua é esta? Que tipo de palavra tem tantas consoantes seguidas?
- … tem apenas duas vogais… – Constance articulou um u com os lábios, enquanto tentava imaginar como pronunciar a seqüência de consoantes, proferindo som nenhum – Há de ser alguma língua de demônios, mestre!
- É provável… Leia o restante, que está em inglês.
- Huum… o… Ku… Uuu…
- Não preciso que leia o nome da criatura… leia a descrição!
- “O poderoso, e sobretudo mais temido dos seres sobrenaturais, o…” – pigarreou – bem, o senhor sabe que se trata da criatura da gravura, não? Enfim, o ser “nunca foi avistado realmente, a descrição que se segue, é baseada em estudos do sobrenatural e relatos encontrados em pirâmides, templos, esculturas, louças sagradas, quadros e outras tantas obras produzidas e registradas pelos homens ao longo dos milênios. Apesar de ignorarmos por completo quais sejam suas habilidades destrutivas, é sabido e certo serem as maiores e mais destrutivas em todos os mundos conhecidos até então. Acredita-se, dada a natureza das informações, sobretudo de templos e utensílios sagrados de diversos cultos distintos, que mesmo a visão do… oh… da criatura matará imediatamente todo mortal e grande parte dos seres sobrenaturais de diversas espécies de raças mais frágeis e aproximadas ao ser humano…”
- Raças mais aproximadas ao ser humano? Isto quer dizer…? – Amadeus interrompeu.
Embora portasse aparente calma, a voz denotava evidente ansiedade. Fitou a criada com um pouco mais de atenção. Sentiu-a aflita.
- Que tem, chérrie?
- Mestre, como é possível que exista tal monstro? Digo… como alguma criatura, postedade ou ser poderia extinguir a vida dos demais apenas exibindo sua aparência a estes?
Amadeus, geralmente dotado de extrema astúcia, sagacidade e tendo vivido anos suficientes para portar um invejável conhecimento de muitas coisas, surpreendeu-se ao notar-se sem resposta pronta à Constance. Respondeu-lhe, poucos segundos depois, com o único questionamento lógico que lhe ocorreu:
- Imaginou, chérrie, alguma vez antes de quase ser morta por Cardinalle, que mesmo sem converter-lhe o corpo em cinzas ou semelhante, a luz poderia subtrair-lhe a existência? E que existisse ser tal capaz de matá-la sem contudo ferir-lhe o corpo ou mesmo tocar-lhe?
- Oh…! – fitou as páginas que lia, surpresa – Alguém deve deter tal nefasta criatura!
- Não seremos nós, Constance. Mesmo porquê, até que tenhas lido por completo as informações anotadas por sir Ivan, ignoramos por completo onde vive, se é que ainda vive, e como matá-la.
- Por que as anotações conteriam instruções sobre como matá-la? Nada parecido reparei nas anotações sobre o Ugus Kaajaan.
- Apenas prossiga e saberemos. Mesmo porque, as anotações dizem que nunca foi avistado realmente. Tenho para mim, que sequer deva existir. É provavelmente, apenas boato, ou história fantástica de feiticeiros, alquimista e toda a gama de seres mortais que insistem em envolver-se com o que não compreendem e da mesma forma, e por isto mesmo, não podem lidar.
- Mestre, o senhor era um mortal!
- Disse bem, chérrie. Providenciei para que esta situação chegasse ao fim. – encarou a criada com um enigmático olhar – Sinto muito que jamais poderá sentir o que sinto. Tendo nítida consciência das diferenças entre viver como mortal e existir como ser sobrenatural, não efêmero. Nunca poderá senti-lo, Constance.
A criada permaneceu em silêncio, encarando seu senhor, incapaz de proferir palavra a respeito, confusa que estava com o que acabara de dizer-lhe o vampiro.
- Vamos chérrie, não se entristeça com o que acabo de dizer-lhe! Tens a vantagem de ser destemida, pois que os males que afetam e tiram a vida dos mortais não lhe representam perigo.
A criada porém, não alterou as feições, o que fez com que o duque buscasse alternativa à situação desajustada.
- É melhor que prossiga com a leitura.
Constance correu os olhos pelas páginas, procurando o parágrafo a prosseguir.
- O texto segue: “Nenhuma representação visual, gravura, pintura ou escultura, da criatura foi encontrada até então, porém, das muitas descrições por escrito podemos chegar à seguinte aparência que, acreditamos, mais se aproxime da realidade, sendo que a criatura muito provavelmente possua traços vagamente antropodes, contudo, uma cabeça de polvo ocupa o lugar sobre o pescoço, nesta grotesca cabeça, um rosto como um amontoado de tentáculos. Tão repulsivo quanto a cabeça e o rosto possam ser, ainda mais lhe é o corpo escamoso, cujas patas terminam em prodigiosas garras dianteiras e traseiras. Completam a monstruosa anatomia longas asas estreitas nas costas, sendo que em todas as menções encontradas a respeito do ser, é observado que dorme profundamente nalgum lugar remoto, com seu corpo de aspecto inchado assentado sobre um bloco ou pedestal retangular, coberto por indecifráveis caracteres, cuja origem, acredita-se remonta às trevas, ou qualquer gênese não-humana. Ainda é importante ressaltar que dorme profundamente a criatura em sua desconhecida morada pois que é impossível a qualquer ser, mortal ou mesmo sobrenatural, tirar-lhe a vida ou deter-lhe, caso desperte. Crê-se que a ciência e o acesso a tais relatos seja possível graças a vil e inacreditável existência de cultos e seitas de adoradores e seguidores da criatura. Muitos motivados não por fé ou crença de que possam subsistir caso desperte, outrossim, seguem-no e prestam-lhe louvores motivados pelo medo extremo e inevitável, que alcança-os de forma incompreensível e imperceptível, assaltando-lhes a mente enquanto dormem ou permanecem sozinhos à noite, em meio à escuridão e reduzindo seus pensamentos, com terríveis e assombrosos pesadelos e visões tremendas, à devoção cega e inconsciente, encaminhando-os lentamente à posterior e inevitável loucura advinda do pavor e desespero sem controle, levando muitos a desejar e buscar a morte e outros tantos a arrancar os próprios olhos na esperança vã de que cessem as temíveis imagens aterradoras de desolação e morte.”
Constance suspirou longamente ao término da leitura, tentando aliviar a tensão do corpo sentado sobre a cama. Amadeus, posto tivesse a habitual aparência de serenidade, e certo desdém, de sempre encontrou-se sem palavras para prosseguir diálogo com sua criada. Foi esta quem quebrou o longo silêncio que se seguiu à leitura.
- Sir Ivan sempre nos repete que não há um deus ou criatura semelhante, porém, Jomale foi um dia uma mulher como as outras… Como é possível que se tenha tornado em um ser tal, capaz de com simples palavras em um livro trazer à existência criatura como esta sobre a qual acabo de ler? E caso não tenha sido Jomale, quem poderia ser? Ainda… quem poderia fazer adormecer tal monstro? Mestre… sempre me fez acreditar que seria eu um dia o mais forte ser vivente que já existiu, isto contudo não é possível, não é mesmo? Como poderei eu, sobrepor a magnitude dos seres que fizeram esta criatura e de igual modo aquele ou aqueles que lhe fizeram dormir? Ou… o senhor tampouco sabe a respeito destas coisas?
Passando o braço sobre o ombro da criada, aconchegou-a junto a si.
- Admito que muitas coisas há, das quais nada sei a respeito. Das coisas que sei contudo, pouco ou nada posso contar-lhe no momento. Posso, todavia, assegurar-lhe a respeito disto – tomando o livreto, apontou para a gravura da grotesca criatura – nem mesmo tal ser irá estouvar-nos em nossos intentos. Tudo de que necessito é que permaneças comigo.
Constance abraçou-se à cintura de Amadeus, apertando o rosto contra seu peito.
- Isto é uma espécie de promessa de que nunca mais irá desobedecer-me?
Amadeus sentiu que o corpo da criada tremia. O que teve início como receosa preocupação tornou-se rapidamente em contrariado ressentimento. O tremor, que de início fora interpretado por Amadeus como medo ou talvez choro, era na verdade riso, que Constance lutava para conter.
- Ora! De fato, por mais que tente moldá-la aos meus refinados modos, hás de sempre ser um pequeno demônio. Pensei que trazia comigo para casa uma criança e na verdade carregava junto ao peito um diabinho possuído por lucíferes!
A repreensão do duque resultou apenas em riso mais exagerado e aberto da criada.
Capítulo I
1° episódio - 4ª, 5ª e 6ª parte
3ª Episódio - 1ª, 2ª, 3ª e 4ª parte
Capítulo II
1º episódio - 5ª. 6ª , 7ª e 8ª parte
1º Episódio - 9ª, 10ª, 11ª, 12ª e 13ª parte
2º episódio - 8ª, 9ª e 10ª parte
2º Episódio - 11ª, 12ª e 13ª parte
2º Episódio - 16ª, 17ª e 18ª parte
3º Episódio - 17ª, 18ª e 19ª parte
Próximo post, ou no próximo, ou no próximo Q estou planejando uma pequena surpresa ><.
Há de serHá

